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O "BRANCO" BRASILEIRO, GUEREIRO RAMOS E A ONIPRESENÇA ESCONSA DA BRANQUIDADE

 

“Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência européia.” (Dec. Lei nº 7.967 / 1945).

 

“É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho que não se acharem sujeitos à ação criminal de seu país, exceptuando os indígenas da Ásia, ou da África, que somente mediante autorização do Congresso nacional poderão ser admitidos de acordo com as condições que forem então estipuladas.” (Decreto nº 525 / 1890)[1]).  

 

“Duvido que haja biologista que depois de estudar, digamos, um micróbio, tenha visto esse micróbio tomar da pena e vir a público escrever sandices a respeito do estudo do qual ele participou como material de laboratório.” (Costa Pinto, L. A., em resposta às críticas de Guerreiro Ramos e outros intelectuais negros. 1954))[2]

 

Ser e Parecer Branco ou Negro

 

O presente artigo aborda uma questão cara aos brasileiros, a da sua identidade étnica, fonte de copiosos estudos desde a primeira metade do século XIX, após a Independência, e ainda hoje, apesar do consenso em torno da idéia do amálgama das “três raças”. Sempre, o espectro do signo raça no centro das explicações, a preocupar nacionalistas de todo tipo. Tema delicado, cumpre esclarecer desde logo em que sentido são empregadas as palavras/categorias esconsa e branquidade.

 

Esconsa. Cf. Aurélio: “1. Inclinado, oblíquo, enviesado, absconso; [...] 2. Oculto, escondido”. Esconsa porque não encontrei palavra que melhor reunisse as noções que tinha em mente: escondida, oculta, enviesada, dissimulada. Em suma, algo escondido, porém de forte presença.

 

Branquidade. Derivada de branco/a, esta palavra/categoria não se refere à idéia de raça, pois, como se sabe, inexistem raças biológicas entre os humanos. Nem, necessariamente, à cor da pele, embora este seja um dos referentes utilizados para, de forma subjetiva, atribuir qualidades a indivíduos e grupos. Branco/a como sentimento de pertença étnica, caracterizado, sobretudo, pelo compartilhamento de valores (estéticos, éticos, comportamentais etc.), referidos à tradição cultural européia. Branquidade, ontem aparecida até na legislação, como referido nas epígrafes acima, e hoje, esconsa.

 

Edison Carneiro (CARNEIRO, 1950) reuniu em sua Antologia do negro brasileiro mais de 100 autores que escreveram “sobre o negro”. Ainda hoje são comuns os artigos, livros, seminários e disciplinas cujo objeto de estudo é “o negro brasileiro”. Forma estranha de estudar as relações sociais de uma sociedade, como observou Guerreiro Ramos (1995), que insistia em que os estudiosos incluíssem “o branco brasileiro” na equação. Ocorre que essa verdadeira mania ganhou o senso comum, e frases como as seguintes são corriqueiras: “Os próprios negros se discriminam”; “Se eles estão em situação de inferioridade é por causa da escravidão”; “Ela é uma negra bonita, tem feições finas”; “Ele é um preto de alma branca”. E por aí afora. Ocorre que também os brasileiros “brancos” são às vezes referidos por “eles” em conversas fechadas entre negros: “Eles se acham melhores em tudo”; “A jornalista é branca, mas é a favor das cotas”; “Ele é um branco de alma preta”, e assim por diante. Espírito da negritude? Sim. Acontece que, ao longo do tempo, no exame dos estudos sobre as relações etnorraciais no País, tem-se a impressão de que, se houve e se há problema nessas relações, este se situaria exclusivamente no negro, motivo pelo qual seria necessário estudá-lo bem para amoldá-lo às “características mais convenientes da ascendência européia da população brasileira”.  

 

Tendo em vista que ser branco ou negro não é só uma questão de fenótipo, mas também de identificação pessoal; e que o branqueamento, como vimos, foi política oficial da República, teria restado ao negro, além de ter que copiar costumes, crenças e valores tidos por “convenientes” ou “normais”, conseguir, com o uso de produtos apropriados, olhar-se no espelho e ver-se de cabelos sedosos, pele clara e nariz afilado. No dia-a-dia, nada de gargalhadas, roupas extravagantes, gingas e quizomba, a não ser em dias festivos, para diversão geral. Em suma, deveria branquear-se, ainda que só por dentro. Parecer branco.

 

Sobre branqueamento, tanto o auto-branqueamento, na forma descrita no parágrafo precedente, quanto o buscado com as políticas do Estado, muito já se escreveu (HASENBALG, 1992; MUNANGA, 1999). É compreensível, embora lamentável, que nos estertores do Império e primeiras décadas da República fosse assim, de vez que o racismo científico virara dogma universal. Causa espécie, no entanto, que ainda haja patrícios que se comportem como se houvesse uma “matriz de normalidade étnica”, em torno da qual gravitassem indivíduos e grupos desconformes, necessitados de esclarecimento e tutela.

 

E o branco brasileiro, como perguntou o “mulato” Guerreiro Ramos? Este falava de forma provocativa em “patologia social do branco brasileiro”, a de olhar o negro, como fez Costa Pinto, como material de laboratório. Talvez não seja o caso de instar os estudiosos brancos a que se coloquem como objeto de suas análises, mesmo porque, curiosamente, muitos deles passaram a afirmar que não o são, fazendo mau uso do princípio universalista. “Somos todos misturados, só brasileiros”, dirão. E também não é o caso de promover um exercício de afrocentrismo de igual índole.

 

Ainda a propósito desse ponto, cumpre aludir a episódio que bem o exemplifica. Ao comentar polêmica protagonizada por Guerreiro Ramos e Abdias do Nascimento (criador do Teatro Experimental do Negro), de um lado, e Costa Pinto, de outro, Medeiros (2004:166), citando Elisa L. Nascimento[3], mostra a que extremos a ideologia da branquidade pode chegar. Costa Pinto, nas conclusões de pesquisa que realizou sobre relações raciais (participara do célebre projeto UNESCO da década de 1950), criticou organizações do movimento negro, falando em “falsa consciência” e em “racismo às avessas”, de uma “elite burguesa intelectualizada e pigmentada”. Questionado publicamente, reagiu na forma citada na epígrafe acima, em que comparou seus críticos, negros, a micróbios.

 

Com Foco no Branco Brasileiro

 

De uns anos para cá tem aumentado o número dos que repetem a pergunta de Guerreiro Ramos. Aliás, como ele próprio revela, o primeiro a se fazer essa pergunta foi Álvaro Bomilcar, nacionalista ferrenho que, nas primeiras décadas da República, se inquietava com o “espírito português” da elite brasileira, com seus “gostos miméticos”, o “culto da brancura” (BOMILCAR, 1916; OLIVEIRA, 1999: 33).

 

E se tem aumentado o número dos que fazem a pergunta de Guerreiro Ramos e de Bomilcar, tem aumentado igualmente o número dos que procuram respondê-la, sendo bom exemplo o livro organizado por Vron Ware (WARE, 2004), de título Branquidade: Identidade branca e multiculturalismo. Os editores do livro talvez tenham evitado o uso de palavras como branquitude e brancura por não corresponderem ao significado pretendido originalmente com o significante whiteness, da língua inglesa, o qual se refere ao orgulho branco de uma suposta superioridade dada pela natureza.

 

No livro que organizou, Ware afirma (pp. 8 e 9):

 

“Esta coletânea é uma tentativa de mostrar o que acontece quando o poder simbólico da branquidade é exposto ao exame rigoroso de acadêmicos e ativistas que trabalham em diferentes contextos nacionais. [...] Os ensaios e excertos [...] oferecem uma gama de exemplos do que se tornou conhecido, no mundo de língua inglesa, como ‘estudos críticos da branquidade’.”

 

No mesmo livro, Liv Sovik (SOVIK, 2004:363-86) fala da “hipervalorização implícita do branco” nos meios de comunicação brasileiros. Chama a atenção para a sub-representação dos negros na televisão, apresentados, quando o são, em papéis estereotipados. Oferece como exemplo a novela Porto dos Milagres, levada ao ar em 2001 pela Rede Globo, baseada em ficção de Jorge Amado, ambientada na Bahia, mas com a presença rarefeita de atores e atrizes negros/as. Ora, todos sabem que a população negra da Bahia é amplamente majoritária. Questionado, o co-autor da telenovela, Aguinaldo Silva, justifica-se. Não vê nada demais em colocar artistas brancas e brancos para desempenhar papéis que, por coerência com a realidade e com a ficção de Jorge Amado, melhor caberiam a atrizes e atores negros. Escuda-se na liberdade de criação do artista. Ora, que efeito artístico objetivou tirar com a troca? Causa mais estranheza ainda que, em artigo intitulado “Espelho distorcido”, publicado na revista Bravo (Ano 5, fevereiro de 2002), referido por Sovik, Aguinaldo Silva conclua: “Acho que os negros, entre os quais orgulhosamente me incluo, devem correr atrás do prejuízo...”. Poderia ter dito: “Nós os negros”, ou utilizar uma silepse de pessoa: “Os negros devemos”, e não precisaria dizer que “se inclui” se já se considerasse realmente incluído. Concluo eu: até ali poderia passar por branco, coisa corriqueira no Brasil. Mais: por que a necessidade do “orgulhosamente”? Aguinaldo descuidou-se e não se lembrou das advertências de Bakthin, Foucault, Barthes e outros adeptos das análises semióticas, segundo os quais o discurso pode significar o oposto do seu enunciado, e os não-ditos podem ser mais significativos do que o que é dito. Lembrei-me dos motivos que levaram Abdias do Nascimento a criar o Teatro Experimental do Negro na década de 1940. Abdias indignava-se com o fato de que, nas peças em que os personagens eram negros, os diretores preferissem pintar atores e atrizes brancos/as de preto. Aguinaldo foi mais prático: em vez de pintar brancos e brancas de preto, branqueou os personagens, sem a necessidade de desperdiçar tinta. Com isso, em tempos difíceis, deu trabalho a um número bem maior de atrizes e atores brancos. Coincidência!... Fico imaginando uma licença poética em que, numa novela de época, escalassem como protagonistas uma mulata e um mulato para representarem um casal de imigrantes italianos.

 

Ainda sobre a dicotomia sujeito / objeto de pesquisa, é interessante um outro livro, coordenado por Roediger (1998), de sugestivo título: Black on White: black writers on what it means to be white[4], em que são reunidos excertos de textos de mais de 50 escritores negros que, de sua perspectiva, falam dos muitos significados de “whiteness” nos Estados Unidos. Ali aparecem duas citações que podem dar uma idéia do seu conteúdo (p. 27). De James Baldwin: “Os brancos não podem, em geral, ser tomados como modelos de como viver”[5]. De Richard Wright: “Dizem que nós fedemos, mas mamãe diz que gente branca tem cheiro de gente morta”[6]. Diferente do que fez Edison Carneiro, curiosamente “mulato” da elite intelectual baiana. Ninguém discordará de que se constitui num despropósito tomar somente os negros como objeto de estudo, se se está falando de relações.

 

Racismo Naturalizado

 

No jogo de sofismas que envolvem o assunto, é comum ouvir-se que é difícil saber quem é negro e quem não é, e que isto inviabilizaria qualquer programa baseado em particularismos identitários. O então presidente Fernando Henrique Cardoso, indiscutivelmente branco para os padrões sociais brasileiros, teria expressado essa visão ao afirmar que ele mesmo tinha “um pé na cozinha”. Como se fosse natural um negro doutor e elitizado dizer: “Eu também tenho um pé na sala”. As pessoas que pensam dessa forma não deixam de ter alguma razão. Nada obstante, elas certamente concordarão que, tanto aqui quanto em qualquer lugar em que a tradição branco-européia subjaza aos esquemas de pensamento e ação, como diria Bourdieu (1987), os agentes da Imigração e a polícia não terão qualquer dúvida. À distância, saberão quem deve ser o alvo da “rigorosa” inspeção ou dos tiros, como sucedeu com o brasileiro Jean Charles em 2005, confundido pela polícia britânica com um terrorista árabe (logo, não-branco...), e como acontece no Brasil. Aqui, o detector de metais parece humano, pois às vezes se atrapalha, como quando a porta do banco trava uma vez, o segurança manda a mulher negra recuar, retirar quaisquer metais e passar de novo, e a operação se repete, até que a mulher negra, que já não carrega sequer um alfinete, seja convidada a desimpedir o caminho porque “alguma coisa” estava fazendo o detector apitar. Racista, como iria o “detector de metais” adivinhar que a negra que pretendia humilhar era uma capitão-de-corveta da nossa Marinha de Guerra, que exigiu entrar e não desimpediu a porta? O caso foi parar na delegacia, onde ela registrou a ocorrência. Por coincidência (faço a menção para que não aleguem que também acontece com pessoas brancas, e que se trata de caso isolado), na mesma delegacia e na mesma hora estava sendo registrado caso idêntico, acontecido em outra agência bancária[7].

 

Um grande desafio com o qual se defrontam os brasileiros de todas as cores e de todas as origens, portanto, é vencer a “naturalização” do racismo, pois este, estando “naturalizado”, é como se não existisse. Muitos encaram a nossa sociedade como uma engrenagem mecânica, com as pessoas e os grupos humanos tomados como peças, encaixadas nos seus devidos lugares, do que é expressão cabal o dito popular: “Cada macaco no seu galho!”. Com isso, mesmo os defensores da luta dos oprimidos acabam garantindo que, se houver discriminação no Brasil, esta seria, se tanto, “social”. Para eles, se negros são discriminados é porque são pobres, e não por serem negros. Isto quando admitem que há negros no Brasil. Falam isso com a certeza dos oráculos; pior, praticando um tipo especial de racismo, talvez o mais cruel, que é negar o óbvio da sua existência. Não conseguem distinguir a cor dos mortos na matança da periferia de uma cidade como o Rio de Janeiro. Acham natural a rarefação de negros nos aviões de empresas aéreas brasileiras, seja como tripulantes ou passageiros. E natural a possibilidade de uma empresa operar somente com funcionários brancos, alegando, se questionados, tratar-se de mera coincidência; ou colocar um ou outro negro para dissimular a regra. Ora, como conseguem achar natural que o Brasil se apresente no exterior como uma democracia racial, representado apenas por diplomatas e altos funcionários brancos, inclusive na África negra? Alegam que tal fato se deve aos rigores do concurso público, uma questão de mérito. Não deixam de ter alguma razão. Porém não levam em conta que esse tipo de “seleção” avalia o capital escolar acumulado desde a infância, às vezes em mais de uma geração. Resultado: um instrumento de aparência neutra e democrática é utilizado para garantir a exclusão daqueles a quem o próprio sistema sócio-político sempre discriminou. Esta foi uma das razões de a Suprema Corte dos Estados Unidos, já no inicio da década de 1970, ter-se posicionado favoravelmente à constitucionalidade de programas de ação afirmativa naquele País e contra práticas supostamente neutras, mas prejudiciais aos negros e outras minorias sociais, como nos dá conta Joaquim Barbosa Gomes (GOMES, 2001). Com efeito, um dos princípios jurídicos em que aquela Corte de justiça se apoiou para assumir tal posição foi o do “impacto desproporcional” (disparate impact), que avalia, não as normas e as políticas públicas e empresariais em si, mas sim os seus resultados, em termos de razoabilidade estatística. Destarte, confrontada com o principio do “impacto desproporcional”, até mesmo uma lei revestida de requisitos técnico-jurídicos formalmente igualitários pode ser considerada substancialmente discriminatória (e, portanto, violadora do princípio constitucional da igualdade), se seus comandos normativos resultarem em desproporcionais e desarrazoados prejuízos a determinado grupo social[8].

 

Educação. Panacéia ou Falácia?  

 

Entre nós, muitos reconhecem as desigualdades sociais, e até “um pouco” de racismo, para o que recomendam uma única saída: a educação. Mas não se pejam de cerrar fileiras contra qualquer projeto de universalização efetiva da educação, com escolas modernas e de tempo integral para as crianças em geral, como aconteceu no Rio de Janeiro com o programa dos Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs, do professor Darcy Ribeiro, na época do governador Leonel Brizola. “Projeto faraônico, fora da realidade, um absurdo”, diriam. Nem pensar numa crítica construtiva, destinada, não a destruir o programa, como conseguiram, e sim a melhorá-lo. Na verdade, o fato de as escolas públicas terem, como têm Brasil afora, instalações precárias, com professores ganhando miséria; e de as universidades públicas, em que o Governo investe enormes somas, serem freqüentadas, de forma desproporcional, por jovens de camadas altas e mesmo abastadas, não só se coaduna com o figurino social que os detratores do “projeto faraônico” têm em mente como serve de moldura para que posem de progressistas indignados com o que chamam de “caos da educação”. Hipócritas! No fundo a velha idéia de que os pobres (aí incluídos os negros) devem preparar-se para tarefas “práticas”, “técnicas”, “com os pés no chão”.

 

Enquanto isso, a violência, os tiroteios e o medo são atribuídos a uma miríade de causas, jamais a esses fatos. Se alguém levantar o dado irrefutável de que a matança atinge desproporcionalmente “não-brancos” pobres da periferia, e que isso tem efeito bumerangue, o mundo desaba. Peleando com a realidade, porta-vozes voluntários da branquidade continuarão a sustentar que a discriminação etnorracial é coisa de outros países. Então, episódios idênticos aos acontecidos no exterior são reportados como se as vítimas fossem incolores e sem identidade. Basta pensar nos milhares de mortos nos confrontos entre bandos de traficantes, entre estes e a polícia, nos atingidos por balas perdidas e na ação das “milícias” para que se tenha idéia do que se esconde por trás desse flagelo (DA SILVA, 2008).

 

Para Refletir

 

As racionalizações predominantes sobre as relações etnorraciais no Brasil valorizam o princípio universalista, o que, de certa forma, não deixa de ser positivo. O problema é tomá-lo como panacéia, reduzido ao carcomido clichê “A saída é a educação”, e negar importância aos particularismos étnicos de nossa sociedade, como se uma coisa excluísse a outra. “Somos todos brasileiros”!, repetirão os seus propugnadores a plenos pulmões, irritados. Espera-se que negros e índios se apliquem na arte mimética, e se vejam como perfeitos produtos da racionalidade civilizatória européia. Em todo caso, há que perguntar: será que não é possível ser brasileiro e branco ao mesmo tempo? E brasileiro e negro? E brasileiro e índio? Que lealdade identitária deve prevalecer: a lealdade à Pátria, fonte de orgulho para os brasileiros, ou a lealdade a um grupo humano cuja afinidade tem como referencial a discriminação que sofre, inclusive das instituições da Pátria? Mais: se a visão da Lei de Imigração de 1945, de que a cultura européia teria uma “ascendência natural” sobre a brasileira ainda não se tiver dissipado, isto significa que os negros devem esquecer-se de que um dia seus ancestrais cruzaram o Atlântico, trazidos da África nos tumbeiros? E que os indígenas devam migrar para as cidades, colocar paletó e gravata e esquecer do massacre dos seus ancestrais? E que, ao contrário, se ache natural a constante evocação que muitos brasileiros fazem à ascendência européia, sôfregos em reconstituir genealogias e obter dupla nacionalidade, com base no direito de sangue (jus sanguinis), com passaporte europeu e tudo? Por que a diferença?

 

Seria bom que a descrição que se costuma fazer do Brasil correspondesse à realidade. Que o País fosse, de fato, uma sociedade harmoniosa, fraterna, igualitária e pacífica; que fosse, de fato, um exemplo de convivência racial, com um povo misturado, cordial e tolerante; que fôssemos todos, antes de tudo, “brasileiros”, medidos pelo que tivéssemos por dentro, e não pela cor da pele e outros signos externos. Acontece que o Brasil é menos isso, e mais o contrário, o que não é admitido pelos saudosistas dos tempos em que impunham os valores da branquidade como mandamento divino, até na legislação, como vimos. Não entendem que o mundo mudou, e que o Brasil não é uma ilha.

 

Apesar dos pesares, o Brasil tem tudo para ser a sociedade sonhada, o que, no entanto, dependerá de que tenhamos em mente alguns pressupostos: primeiro, o reconhecimento de que o racismo no Brasil continua “naturalizado” pela força abarcadora dos ideais da branquidade; segundo, a compreensão de que a sociedade brasileira não é como costuma ser romanticamente descrita; terceiro, a aceitação de que o valor universalista miscigenação, que a todos iguala, é compatível com a aceitação do valor diversidade étnica, que assegura o direito à diferença; quarto, o reconhecimento de que os estudos sobre as nossas relações etnorraciais se enviesaram ao excluir o elemento branco da análise; e quinto, que a tentativa de imposição unilateral de uma “uniformidade identitária” anacrônica, evocativa do velho modelo cultural branco-europeu, ainda que dissimulada, tem levado à exacerbação da intolerância, e daí à exacerbação dos conflitos e da violência.

 

Que história é essa de que no Brasil não há brancos nem negros? Por que um brasileiro não pode ter orgulho de sua ascendência européia ou africana, ou indígena, ou asiática, ou judia, ou muçulmana, ou cigana, ou o que for? Ora, a recolocação dos termos da equação é imperativo cometido aos brasileiros e brasileiras de todas as cores e origens.

 

Notas

 

[1] Cf.: (a) Dec. Lei nº 7.967, de 18/09/1945, de Getúlio Vargas, por influência dos eugenistas; e (b) Decreto nº 528, de 28/06/1890, de Deodoro da Fonseca, chefe do governo provisório da República, que tornou LIVRE a imigração, “excetuados os indígenas da África ou da Ásia”, os quais “somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos”; e que determinou aos agentes diplomáticos que obstassem “pelos meios a seu alcance a vinda dos imigrantes daqueles continentes, comunicando imediatamente ao Governo Federal pelo telégrafo quando não o puderem evitar” (Cf. Arts. 1º e 2º).

[2] Cf. Artigo de Costa Pinto publicado no periódico O Jornal, edição de 10 / 07 / 1954.  

[3] Cf. NASCIMENTO, Elisa Larkin. O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2003, p. 274.

[4] Em Português (trad. livre): Negros sobre brancos: escritores negros sobre o que significa ser branco.

[5] Em inglês: “White people cannot, in the generality, be taken as models of how to live”.

[6] Em inglês: “They say we stink, but my ma says white folks smell like dead folks”.

[7] Cf. Registro de Ocorrência nº O09 - 00376/2005, e Registro nº O09 - 00380/2005, da 9a DP, Flamengo.

[8] Conferir em Gomes (Op. Cit.: 243-434) exemplos de decisões emblemáticas da Suprema Corte.

 

Referências Bibliográficas

 

BOMILCAR, Álvaro. O preconceito de raça no Brazil. Rio de Janeiro: 1916.  

BOURDIEU, Pierre. “Sistemas de Ensino e Sistemas de Pensamento”. In: BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987, pp. 203-230.

CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro. Porto Alegre: Editora Globo, 1950.

DA SILVA, Jorge. “Violência civil no Rio de Janeiro: Genocídio e etnocídio programados.” In: DA SILVA, Jorge. 120 Anos de Abolição. Rio de Janeiro: Hama, 2008.

GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1995.

GOMES, Joaquim Barbosa. Ação afirmativa & princípio constitucional da igualdade: O Direito como instrumento de transformação social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro / São Paulo, 2001.

HASENBALG, Carlos H. “O negro na publicidade”. In: HASENBALG et GONZALES, Lélia. Lugar do negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982.

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MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999.

OLIVEIRA, Augusto C. F. “A sociologia do branco” e a questão da moral no pensamento de Álvaro Bomilcar. (Dissertação de Mestrado). Rio de Janeiro: IUPERJ, 1999.  

ROEDIGER, David R. Black on White: black writers on what it means to be white. New York: Schocken Books; Toronto: Random House, 1998.

SOVIK, Liv. “Aqui ninguém é branco: hegemonia branca e media no Brasil”. In: WARE, Vron (Org.). Branquidade: Identidade branca e multiculturalismo (Tradução de Vera Ribeiro). Rio de Janeiro: Garamond, 2004, pp. 363-86.  

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