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MILITARISMO

 


(DA SILVA, Jorge. "Militarismo". In: SANSONE, Lívio et FURTADO, Cláudio (Org.). Dicionário crítico das ciências sociais dos países de fala oficial portuguesa. ). Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia - EDUFBA, 2014, pp. 349 - 362) 
   

 

Conceito 


"Militarismo" é daqueles termos insuscetíveis de definir por meio de um enunciado preciso ou de conceituar de modo a abarcar as suas diferentes nuanças. Inobstante a dificuldade, é comum considerar-se militarismo como uma ideologia segundo a qual a expressão militar do poder de um Estado tem primazia na formulação e condução das políticas públicas, do que resulta a preponderância dos militares em relação aos civis ou a sua forte influência na tomada de decisões. Cumpre observar, no entanto, que ao significante "militarismo" corresponde um amplo feixe de significados, dependendo do contexto social em que o mesmo é empregado e da perspectiva de quem o emprega. Assim, poderá ser praticado enquanto é negado ou mascarado sob o manto do nacionalismo. Ou ser apresentado como um imperativo da busca da paz e, paradoxalmente, de defesa da democracia. 


Ajudará na melhor compreensão do conceito, no entanto, levar em conta que a palavra militarismo (de militar  ismo) tem o seu campo semântico ligado ao substantivo latino miles, -itis (soldado, soldados); ao adjetivo militaris, -e (de soldado, militar, da guerra, guerreiro), ao verbo milito, -are (ser soldado, fazer o serviço militar, combater), e ao substantivo militia, -ae (serviço militar, campanha, expedição, tropas, milícia). O cerne da questão, portanto, reside na diferenciação entre os sentidos de "militar" e "militarismo", ou seja, entre os peculiares modos de ser e agir de um indivíduo ou grupo, como explica Castro (2004) ao aludir à distinção entre o que se costumou chamar de "espírito militar", inerente aos valores cultuados pelos integrantes do estamento castrense - a ética, a disciplina, a integridade moral -, e "militarismo", visto como a ausência desses valores ou a deturpação dos mesmos. Ou, como afirma Boer (1980) em Militarismo e clericalismo em mudança, trata-se do desrespeito, pelos militares, dos limites de sua função. Restará saber, porém, em que ponto exatamente se situariam esses limites.    


Huntington (1957), reconhecido militarista norte-americano, defensor do modelo político-militar prussiano, toca num aspecto que ajuda a esclarecer esse ponto. Ele concebe a atividade militar nas democracias liberais como uma profissão regular, com uma ética profissional própria, orientada, acima de tudo, pela virtude da obediência. Para ele, quanto mais profissionalizado for o setor militar, melhores serão as relações civil-militar. Tal abordagem, em linhas gerais, lembra tanto a alusão de Castro (Op. cit.) ao "espírito militar" quanto a definição proposta por Boer (Op. cit, p. 225) de "ideologia militar", correspondente à "mentalidade militar", própria dos profissionais, cujos valores "são dedutíveis da natureza da função". E conclui Boer que se poderiam identificar cinco características principais da "ideologia militar": o autoritarismo, o pessimismo a respeito da natureza humana, o alarmismo, o nacionalismo e o conservadorismo político. A ideologia "militarista" também apresenta essas características, com a diferença de que os adeptos da mesma exacerbam-nas ao máximo, em tudo vendo ameaça ou desordem. Em suma, o militarismo "não é dedutível da natureza da função militar".  


Raízes do Militarismo 


Encontram-se raízes do militarismo na história da humanidade, em íntima relação com o fenômeno da guerra, embora não se possa afirmar que os grupos humanos, antes do quinto ou sexto milênio a.C., se enfrentassem de forma planejada e organizada. Notícia desse tipo de enfrentamento, opondo contendores de um lado e de outro, com o uso de armas e equipamentos próprios e a aplicação de táticas, só aparece posteriormente, em registros escritos, inscrições pictográficas em cavernas e achados arqueológicos sobre feitos de guerreiros e reis. Antes, não mais que incertezas, embora Keeley (1996), em War before civilization (Guerra antes da civilização), baseado em escavações de que participou, conclua que confrontos desse tipo teriam ocorrido antes, no início da Era Neolítica (aproximadamente 9.500 anos a.C.). 


Isto não significa que as contendas da pré-história, e mesmo da história antiga, sejam consideradas "militares" stricto sensu, como o termo é entendido depois.  A referência é feita para mostrar que o enfrentamento armado entre os grupos humanos parece ser uma contingência da história do homem, independentemente das questões filosóficas para saber se, nos primórdios, houve realmente um "estado de natureza" (anterior à associação comunitária), e se, nesse "estado", o ser humano era inerentemente pacífico ou não, tema que ocupou as preocupações, dentre outros, de Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau, aquele sustentando que o estado natural do homem é o de beligerância, e este, o de paz. Mas esta é outra questão. O que importa é indagar como os grupos humanos começam a se armar, não para caçar e defender-se dos animais ferozes, e sim para se defender de grupos hostis, e atacá-los de forma planejada; e como as organizações militares vão ter proeminência na constituição dos estados. Nas palavras de Keeley:  


"Não surpreende então que as primeiras histórias registradas, os primeiros relatos dos feitos dos mortais, sejam histórias militares. Os mais antigos hieroglifos egípcios registram as vitórias dos dois primeiros faraós, o Escorpião Rei e Narmer. [...] De fato, até o século atual, a historiografia foi dominada por relatos de guerras" (p.23) [tradução livre]. 


Na verdade, porém, de cerca de seis mil anos para trás não se consegue ir muito além de conjecturas sobre como os diferentes grupos de homo sapiens sapiens, os homo atuais, se relacionavam.   


À medida que os agrupamentos humanos vão se tornando mais populosos, formando sociedades complexas, os conflitos se avolumam. Das desavenças pontuais do passado entre tribos vizinhas, chega-se aos pequenos reinados da antiguidade, cujos régulos, ao mesmo tempo em que se estruturam para a defesa, preparam-se para atacar outros agrupamentos, na busca de mais poder, prestígio, escravos e, principalmente, riqueza. Inaugura-se aí, lá pelo quinto ou sexto século a.C, uma fase expansionista, para o que será necessário reunir os meios disponíveis e contar com armas produzidas especialmente para os embates, além da necessidade de reunir contingentes cada vez maiores de guerreiros. Tem-se aí o embrião dos futuros exércitos, no sentido de miles, -itis, militaris, como vimos. Daí, o aparecimento dos impérios, dentre os quais se destacam, entre os antigos e os modernos, o egípcio, o do Mali, o assírio, o asteca, o inca, o romano, o mongol, o português, o espanhol, o inglês, o francês, o alemão. Comum a todos eles, em maior ou menor grau, a centralidade das armas na condução da política.             


O Papel dos Militares nas Democracias e o Militarismo      


É esclarecedora a diferenciação feita por Ruy Barbosa entre "instituições militares" e "militarismo" em discurso na campanha eleitoral de 1909 - 1910 (Barbosa, 1910, p. 43) quando se apresentou como candidato à presidência da República brasileira. Em linhas gerais, corresponde à distinção "espírito militar" / "militarismo", comentada acima. A República que se instalara em 1889 resultara de um golpe militar que derrubou a monarquia da Casa de Bragança, do qual saiu presidente do Governo Provisório um dos líderes do movimento, marechal Deodoro da Fonseca. Ruy Barbosa fora ministro da Fazenda desse governo, ao qual se seguiu o de outro marechal. Em 1909, tendo como opositor na disputa presidencial também um marechal - que viria a vencer as eleições -, Barbosa lançou a "campanha civilista":                          


"O militarismo, governo da nação pela espada, arruína as instituições militares, subalternidade legal da espada à nação. As instituições militares organizam juridicamente a força. O militarismo a desorganiza. O militarismo está para o exército, como o fanatismo para a religião, o charlatanismo para a ciência, como o industrialismo para a indústria [...]. Elas são a regra; ele, a anarquia. Elas, a moralidade; ele, a corrupção.[...]"

  

Outro ponto importante a respeito do militarismo refere-se à forma como o fenômeno costuma manifestar-se. Pode se referir tanto à sua manifestação nos limites territoriais de determinado Estado, caso dos recentes regimes militares de países sul-americanos e africanos (o que se poderia chamar de "militarismo doméstico"), quanto na relação de um Estado poderoso com os demais, caso dos Estados Unidos, que poderíamos chamar de "militarismo imperial"; ou combinar as duas formas de militarismo, caso do Império Prussiano e da Alemanha nazista.         


Assim que, no âmbito interno dos estados, "militarismo doméstico", podem-se elencar pelo menos três sentidos principais do militarismo: (a) como deturpação do "espírito militar" por parte dos próprios integrantes das instituições militares; (b) como controle, direto ou indireto, do sistema político-administrativo pelos militares, do que são exemplos acabados as ditaduras militares; (c) como compartilhamento, sobretudo em regimes autoritários, ainda que liderados por civis, do "espírito militar" por parcelas significativas da sociedade, caso do ideal do Estado prussiano, em que os valores e atitudes militares foram inculcados no próprio povo, como observou Johnson (1917) em The peril of Prussianism 


Já o "militarismo imperial" manifesta-se, como mencionado, nas relações internacionais. No limite, o Estado que o pratica pode, internamente, conformar-se ao modelo democrático, enquanto se estrutura militarmente para impor a sua vontade algures. É do que os antimilitaristas costumam acusar, por exemplo, os Estados Unidos. Para Cook (1964), militarismo seria isso, como o descreve em O Estado Militarista, e no qual se refere aos Estados Unidos como um país que desenvolve a sua política externa em consonância com os interesses do chamado "complexo industrial-militar". Cook afirma inclusive que, no caso da Guerra Fria, havia o interesse, tanto dos militares quanto da indústria bélica, de que ela não terminasse. E arremata: referindo-se ao quadro que se configurou ao término da Segunda Guerra Mundial: "O Estado Militarista nascera. Servira-se da ameaça da Rússia para traçar as linhas rígidas da guerra fria [...] Como povo, continuávamos pensando que éramos uma nação amante da paz." (p. 148). 


Esta não era, e não é, a visão dos que entendem que o desenvolvimento daquela Nação depende da sua segurança, para o que o país deve estar preparado contra qualquer ameaça. Os que assim pensam veem o fortalecimento do "complexo industrial-militar" como uma necessidade estratégica, sem contar os ganhos econômicos, não sendo o caso, aqui, de entrar nessa polêmica. De qualquer forma, não é despiciendo anotar que outras supostas ameaças à segurança nacional, finda a "guerra ao comunismo", têm sido utilizadas como razão para alimentar os ideais militaristas tanto de generais quanto de civis norte-americanos, o que justificaria, por exemplo, a "guerra às drogas", a "guerra ao terrorismo", a intervenção militar "preventiva" em outros países contra a produção de armas de destruição em massa.   

E a terceira forma de militarismo, que, grosso modo, combina o "militarismo doméstico" com o "imperial". É manifestado em países nos quais o ethos militarista permeia amplos setores da sociedade civil, e que fazem do militarismo instrumento privilegiado na relação com as demais nações, do que são exemplos emblemáticos o Estado Prussiano e o Estado prussiano-nazista alemão.        


Regimes Militares e a Vida dos Cidadãos  


Em foco a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Desde logo, há que se ter clareza de que militarismo e autoritarismo são irmãos siameses, inerentes às ditaduras e refratários aos ideais democráticos, o que implica reconhecer que expressões como "regime autoritário", "regime militar", "Estado burocrático-autoritário" (na expressão de O?Donnell (1987) para caracterizar os regimes implantados no Brasil e outros países da América Latina) são, em essência, eufemismos para a palavra "ditadura". Nas ditaduras, os cidadãos não contam, e são vistos como existindo para o bem do governo do momento, o qual, arrogando-se o direito de decidir sobre o que é bom para todos e cada um, não se vê como veículo do atendimento dos anseios dos diferentes grupos sociais. Os que divergem dos detentores do poder e dos seus associados são tidos por inimigos, não do governo, mas "da Pátria". Sem contar as consequências danosas do militarismo para outras sociedades, caso de nações africanas submetidas ao colonialismo imperial português, e depois, expostas aos interesses estratégicos de grandes potências militares, caso particular de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.            


Os partidários do militarismo, assumidos ou não, costumam enfatizar os avanços, em termos materiais, conseguidos durante ditaduras, tais como: equilíbrio das finanças públicas, segurança e ordem, grandes obras de urbanização e de infraestrutura etc. Os antimilitaristas apresentam duas principais objeções a esse argumento: primeira, que grandes ou maiores avanços são conseguidos em regimes democráticos; e segunda, que os avanços sob ditaduras, se e quando conseguidos, o são à custa da liberdade e da submissão do indivíduo ao Estado, mediante a censura, a tortura, prisões, perseguição aos considerados dissidentes e, no limite, a sua eliminação física. Disso foram e têm sido acusados regimes sustentados pelas forças militares em diferentes partes do mundo, e não seria diferente nos países da Comunidade de Língua Portuguesa. 


Cumpre reconhecer, portanto, que em regimes de exceção a cidadania é aviltada, pois os cidadãos vivem em ambiente de medo e desconfiança. Em se tratando de angolanos, moçambicanos e guineenses sob o domínio político-militar português, nem pensar em cidadania. Pior ainda depois, em meio a conflitos militares internos, fratricidas. 


Esses problemas referem-se ao fenômeno do militarismo em ditaduras ou à luta militarizada pelo poder. Outra coisa é a influencia dos ideais militaristas em sociedades formalmente democráticas, em especial aquelas que lutaram militarmente pela independência, como antigas colônias africanas, ou saídas de longos períodos de regime militar, como Portugal e Brasil.               


Pedagogia da Militarização em Regime Democrático   


Um acabado exemplo dos efeitos da pedagogia da militarização é dado pelo Brasil. Nos 21 anos de ditadura militar (1964 - 1985), a militarização da sociedade foi tão acentuada que ainda hoje, passados 27 anos, constata-se que a pedagogia castrense implantada no período deixou marcas indeléveis em setores importantes da vida nacional. E não poderia ser diferente, como mostra Brigagão (1985) em A militarização da sociedade. Deflagrado o golpe em 1964, uma junta militar assume o poder e escolhe um marechal, Castello Branco, para presidir a República. Inicia-se aí o que Brigagão chama de "montagem da máquina", que se estenderia a toda a Administração. Além do marechal-presidente, surgem os generais ministros e coronéis diretores de empresas estatais estratégicas.     


Era preciso ainda, na visão dos militares, conter o avanço do ideário comunista. Nada diferente do Estado Novo português. Daí que, paralelamente à máquina "burocrático-autoritária", montou-se o que se poderia chamar de "máquina ideológica", a qual teve como epicentro a "doutrina da segurança nacional", formulada na Escola Superior de Guerra. Como forjar um habitus - na expressão de Pierre Bourdieu em suas lições sobre sistema de ensino e violência simbólica - que reproduzisse "esquemas de pensamento e ação" coerentes com a Doutrina? Resposta: Por meio do que John Stuart Mill chamou de "tirania da opinião", viabilizada pela rigorosa censura e pela perseguição aos jornalistas "subversivos", e pelo expurgo de professores, parlamentares, magistrados, diplomatas e militares tidos por esquerdistas. Tudo complementado pela apropriação monopolística do sistema educacional-cultural, ação da qual o Ministério da Educação e Cultura (no período, dirigido por um coronel e um general) foi o principal instrumento. Como anotou Lozano (2006) em Os livros didáticos de História e a Doutrina da Segurança Nacional, o controle do saber se consolidou com a inclusão obrigatória, nas escolas "de todos os graus e modalidades", da disciplina Educação Moral e Cívica. Em boa medida, a ideologia do regime induzia à prussianização da sociedade brasileira. Hoje, por exemplo, na luta contra o crime e a violência, observa-se que as polícias introjetaram o espírito do que Da Silva (1996) chamou de "militarização ideológica da segurança pública", com a incorporação de conceitos como "ocupação", "vitória", "inimigo", "cerco", "teatro de operações" etc. Por outro lado, tem-se considerado natural que as Forças Armadas sejam empregadas em atividades de natureza policial, o que é fortemente apoiado por amplos setores da sociedade, com realce para a mídia.          


Em Portugal, durante o Estado Novo desenhado pelo Dr. Oliveira Salazar, e que durou 41 anos, de 1933 a 1974, o regime funcionou mais ou menos da mesma forma, parecendo que os militares brasileiros se inspiraram no modelo salazarista, tão parecidos foram os métodos. A ditadura portuguesa valera-se igualmente da censura e do controle dos meios de comunicação, das artes, do ensino e da cultura, e do aparelho do Estado, tendo criado o poderoso Secretariado de Propaganda Nacional e a temida PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Suprimiu as liberdades civis e o movimento social, expurgou professores, perseguiu e prendeu dissidentes políticos. E não faltou a doutrinação, por todos os meios, da ideologia do regime. Aqui também a "tirania da opinião", inclusive contra aqueles que, nos estertores do regime, alertavam para a irracionalidade de se continuar com as guerras em ultramar.                     


Foi contra esse estado de coisas que militares que se opunham ao regime, em maioria oficiais de baixa patente, formaram o MFA (Movimento das Forças Armadas) e deflagraram o golpe militar de abril de 1974, conhecido como Revolução dos Cravos, sendo esta, aparentemente, uma das razões de o ethos militarista ter-se enfraquecido um pouco mais naquele país, visto que os militares do MFA tinham um ideário reformista radical, no sentido da democratização.                


Passados os primeiros momentos de euforia democrática, no entanto, a sociedade se viu às voltas com problemas adormecidos pela censura. O aumento das taxas de desemprego e de inflação, independentemente de fatos como os altíssimos custos do esforço de guerra; o retorno das tropas desmobilizadas e o refluxo de cidadãos portugueses para a metrópole, nada disso é levado em conta pelos adeptos da velha ordem, para quem tudo seria fruto do excesso de liberdade e da falta de repressão. Setores do próprio governo são tentados a recorrer aos velhos métodos de "lei e ordem", o que a institucionalização democrática aos poucos inviabiliza, pelo menos em parte. Permanecem os problemas da criminalidade e da violência urbana, com o ressurgimento da explosiva mistura de nacionalismo com xenofobia, sobretudo em face dos imigrantes africanos. Há quem pense novamente na polícia e na força armada como solução.        


Em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, assim como em outras nações africanas que sofreram a opressão do colonialismo e do imperialismo europeus, uma das heranças perversas deixadas pela dominação foi, sem dúvida, a ideologia militarista, potencializada pelos interesses geoestratégicos dos blocos soviético e norte-americano, na esteira da Guerra Fria.    


Em Angola, proclamada a independência em 1975, os movimentos que lutaram por ela, nomeadamente o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), entram em disputa pelo poder, desembocando numa guerra civil de consequências desastrosas, opondo principalmente o MPLA, apoiado pelos soviéticos, e a UNITA, sob a influência norte-americana. A guerra custou cerca de meio milhão de vidas e só terminou em 2002, com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi.      


Em Moçambique, após a independência em 1976, grupos militares descontentes e dissidentes da FRELIMO (Frente para a Libertação de Moçambique), que ascendera ao poder, insurgem-se contra o governo que se instaurou e formam a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Inicialmente um movimento para desestabilizar a FRELIMO, o conflito descamba para uma guerra civil de grandes proporções, deixando milhares de mortos e mutilados. De novo, a interferência de potências estrangeiras amplia o conflito, com o bloco soviético apoiando e financiando a FRELIMO, e o norte-americano, a RENAMO.       

 

Na Guiné-Bissau, a luta pela independência teve mais unidade, centralizada no PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde). Embora uma colônia considerada menos importante do ponto de vista político pelos portugueses, foi a partir dela que se deflagrou o processo emancipatório das demais. Depois da luta de guerrilha bem sucedida contra as tropas portuguesas, o PAIGC declara unilateralmente a independência da Guiné-Bissau em 1973, surpreendendo os portugueses, que não a reconhecem, mas nada podem fazer. O reconhecimento só vai ocorrer em 1974, depois da queda do Estado Novo, queda essa que, em boa medida, deveu-se à derrota na Guiné.  

        

Voltando ao militarismo. Não por acaso, depois de anos de luta pela independência, e de guerras fratricidas, os países africanos constituem-se num importante mercado da indústria mundial de armas, a abastecer tanto os conflitos internos quanto os regionais. Hoje, vários países do Continente são importantes produtores de armas, como a África do Sul, o Zimbabué, a Nigéria. Armas que têm abastecido exércitos regulares, grupos paramilitares, milícias privadas, guerrilheiros, terroristas, traficantes, criminosos em geral. A esse respeito, é digna de nota a menção de Coelho (2003) ao "legado das guerras coloniais nas ex-colônias portuguesas". Mostra que a insistência em manter o domínio sobre os territórios ultramarinos manu militari incluía a estratégia de cooptar africanos para a luta, o que implicava não só o recrutamento local para as forças regulares como a mobilização de autóctones para constituírem milícias armadas, sobretudo no campo, contra os "subversivos". Tinha-se por objetivo, como assinala Coelho (pp. 177), "transformar as populações de meros camponeses em defensores activos da ordem colonial, em combatentes activos contra o movimento nacionalista armado." 


Bem, terminadas as guerras, ficaram os efeitos da pedagogia militarista. Desmobilizados e divididos, mas armados e versados no manejo de armas, o que se poderia esperar dos ex-combatentes e milicianos africanos? Fez sentido que Angola e Moçambique tenham entrado em sangrentas guerras civis e que, não tendo superado totalmente as sequelas decorrentes, ainda encontrem dificuldade para consolidar a democracia, assim como faz sentido a instabilidade política na Guiné-Bissau, sacudida por sucessivos golpes militares.     


Tendências e Desafios  


Não resta dúvida de que o fenômeno do militarismo, como ideologia ou como prática política, está presente no mundo inteiro, inclusive no seio das democracias ditas liberais, ainda que de forma latente. No interior dos países, a ideologia é compartilhada, de forma aberta ou velada, por setores desejosos da cooptação dos militares com vistas aos seus interesses, o que potencializa as tensões entre o setor militar e o poder político. Este fato continua sendo um desafio, como um desafio continua, sobretudo no Sul Global, a dificuldade de o poder civil dotar as instituições castrenses dos meios indispensáveis à sua missão, e de levar em conta os seus pontos de vista e tradições. 


Na esfera das relações internacionais, cada vez mais se percebe o predomínio da força das armas sobre a diplomacia, não sendo talvez por outra razão que o tema do militarismo vem de ocupar posição central na Ciência Política contemporânea, tanto no respeitante aos limites do papel dos militares em regimes democráticos, quanto aos problemas em torno da disputa pelo poder nos campos geopolítico, estratégico e econômico. Os países africanos, por suas riquezas, despertam a cobiça dos países centrais. Acontece que a hegemonia do poder mundial pela força está posta em cheque por novas realidades. Não se está falando mais de fronteiras geográficas tão somente, que possam ser vencidas com aparato bélico, e sim de fronteiras culturais. Como vencer diferenças de religião, idioma, valores civilizatórios, visões de mundo e interesses econômicos conflitantes? Aliás, essas foram as preocupações de Samuel Huntington quando, em tom alarmista, falou em "choque de civilizações" em livro célebre. Fugiu à análise de Huntington que, por este ou aquele meio, é pretensão ao mesmo tempo autoritária e inócua tentar impingir a todas as nações do mundo os valores de uma imaginada "civilização universal", fundada tão somente nas tradições da chamada cultura ocidental.                 


Referências bibliográficas  


BARBOSA, Ruy (1910). Contra o militarismo: campanha eleitoral de 1909-1910. (Primeira Série). Rio de Janeiro: J. Ribeiro Santos (Editor).  

BOER, Nicolas (1980). Militarismo e clericalismo em mudança. São Paulo: T.A. Queiroz.   

BRIGAGÃO, Clóvis (1985). A militarização da sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.   

CASTRO, Celso (2004). O espírito militar: um antropólogo na caserna. Rio de Janeiro: Zahar.  

COELHO, João Paulo B. (2003). "Da violência colonial ordenada à ordem pós-colonial violenta. Sobre um legado das guerras coloniais nas ex-colônias portuguesas".  In: Revue Lusotopie 2003: Violences et contrôle de la violence au Brésil, em Afrique et à Goa, pp. 175-93.

COOK, Fred, J. (1964). O Estado militarista: O que há por traz da morte de Kennedy (traduzido de The warfare state). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

DA SILVA, Jorge (1996). "Militarização da segurança pública e a reforma da polícia". In BUSTAMANTE, Ricardo et al (coord.). Ensaios jurídicos: o direito em revista. Rio de Janeiro: IBAJ, pp. 497 ? 519.    

HUNTINGTON, Samuel P. (1957). The soldier and the state: The theory and politics of civil-military relations. Cambridge: The Bellknap Press/ Harvard University. 

JOHNSON, Douglas W. (1917) The peril of Prussianism. New York / London: G.P. Putnam?s Sons.    

KEELEY, Lawrence H. (1996). War before civilization: the myth of the peaceful savage. New York / Oxford: Oxford.

LOSANO, Andreia A. Casanova (2006). Os livros didáticos de história e a Doutrina da Segurança Nacional. São Paulo: Universidade Metodista. (dissertação de Mestrado).             

(http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_arquivos/1/TDE-2006-12-13T114612Z-119/Publico/Andreia Lozano.pdf)     


O?DONNELL, Guillermo. Reflexões sobre os Estados Burocrático-Autoritários. São Paulo: Vértice-Revista dos Tribunais, 1987.                                                        



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