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"MANHATTAN CONNECTION" E A CAPACIDADE MENTAL DE “BRANCOS”, “NEGROS” E “ORIENTAIS

    


(Nota prévia: Este artigo corresponde a tópico do capítulo III (resumido e adaptado) de: DA SILVA, Jorge.  Violência e identidade social: um estudo comparativo sobre a atuação policial em duas comunidades no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:Uerj, 2005 (tese de doutorado). (mimeo). Ocorreu-me colocar o texto no site agora, em meio à polêmica em torno da imigração de haitianos, considerada indesejável por muitos, que dizem preferir maior abertura à imigração de europeus. Os dados apresentados podem ser conferidos nas edições do programa Manhattan Connection dos dias 2 e 9 de janeiro de 2005)  

  


No dia 2 de janeirode 2005, no programa Manhattan Connection, exibido pelo Canal GNT da GLOBOSAT, da Rede Globo de Televisão, os comentaristas foram instados a opinar sobre uma pesquisa realizada nos Estados Unidos que teria revelado que os estudantes de origem oriental tinham melhor desempenho nas matemáticas do que os negros, e mesmo do que os brancos. O apresentador do programa, Lucas Mendes, quer saber dos comentaristas por que os negros tinham pior desempenho do que os brancos, estranhamente tirando de foco os orientais. Ao introduzir a matéria, antes de passar a palavra ao primeiro comentarista, faz um preâmbulo (que parece estar lendo), em si mesmo repleto de juízos de valor: “Os estudantes negros, de classe média, apesar do empurrão, continuam por baixo. No ensino de 2o grau, eles tiram C e os brancos, B. É um C difícil de explicar. Desta vez, não basta culpar o sistema.” [Grifos meus]. Menciona alguns fatores que explicariam aquilo que apresentou como fato irrefutável, acrescentando: “As melhores universidades hoje aceitam menos negros porque eles não estão preparados”. Dirige-se a Caio Blinder e pergunta:

 

Porque o negócio não está funcionando com os negros?... Por que o problema... Deram dinheiro, deram empurrão, fizeram o sistema de cotas e ajudaram o negro a entrar na universidade, e o negro está com nota C e o branco, nota B?”

 

Caio Blinder responde:

 

Porque demora... Eu não acredito nessas coisas politicamente incorretas...; que, como raça, eles têm um problema, porque eu não acredito em raça; não há uma raça pura, sabe. Existem blocos históricos, sociológicos, e os negros passaram 300 anos na senzala, e talvez demore mais 300 anos para realmente sair da senzala e criar uma ética  de ambição capitalista e...”           

 

Discordando dele, Lucas Mendes o atalha, desta vez recolocando os orientais na discussão: “Eu não vou defender o racismo, não; mas a sua equação não está muito boa. E reformula a pergunta: “Por que os orientais são os primeiros, são nota A? Por que são os melhores alunos..., como grupo racial?”, pondo ênfase nesta última frase. Caio Blinder atribui a diferença às circunstâncias particulares em que os orientais e os negros entraram naquele País: os primeiros, voluntariamente, como imigrantes, na busca de construir dias melhores, e que, “como qualquer grupo de imigrantes, tiveram essa ética da perseverança e da vitória individual”, e os segundos, levados à força como escravos. Segue o debate. Incomodado com a explicação de Blinder, intervém na discussão o jovem comentarista Ricardo Amorim. Concorda com Lucas Mendes, e pontua o cerne da sua discordância de Blinder, afirmando taxativamente:

 

Aonde[sic] eu discordo é achar que não há diferenças de inteligências em função de capacidades de... de... de uma carga genética, e que carga genética vem de uma parte de raça também é negar que haja diferenças de uma serie de outros campos”.   

 

Entra na discussão um outro comentarista, Diogo Mainardi. Entra rindo de Amorim, por achar que o mesmo estava “sacando”, ou seja, posando de conhecedor do assunto de que estava falando: “A coisa mais racista que eu já ouvi na vida”, dizendo-lhe que estava equivocado, pois não existiria raça entre os grupos humanos. No calor da discussão, em que Amorim insistia em seu ponto, é perguntado por Caio Blinder se conseguia provar o que estava dizendo. Faz uma ginástica verbal, não para provar, mas sim para dizer por que não era possível provar. E não encontra outra saída para a impugnação dos dois companheiros de programa, sobretudo a de Mainardi (para quem o que ele estava afirmando correspondia a dizer, por exemplo, que todos os italianos eram iguais), senão insistir na sua teoria:

 

“O que está comprovado é que existe carga genética. Carga genética é uma das coisas que é responsáveis (sic) pela inteligência. [...] O que eu estou dizendo é que uma das razões, sim, que os asiáticos são mais inteligentes potencialmente é a carga genética... Eu acho...são mais inteligentes?!... têm melhores... Isso é outra questão... Ir melhor no teste significa ser mais inteligente?, é uma outra discussão...”         

 

No programa seguinte, no dia 9 de janeiro, o apresentador Lucas Mendes menciona o fato de que o número de e-mails a propósito da polêmica do programa anterior tinha sido grande, muitos deles desaprovando a posição de Amorim. Caio Blinder reafirma sua posição. Diogo Mainardi acrescenta que Amorim deveria pedir desculpas aos negros por sua afirmação. Amorim tenta corrigir-se, alegando que não entenderam direito o que queria dizer, mas atrapalha-se de novo; e Lucas Mendes encerra o assunto, não sem antes ler um dos muitos e-mails enviados ao programa. Um único e-mail, na linha das suas posições e das de Ricardo Amorim.  

 

Bem, trata-se de um programa brasileiro, apresentado, comentado e produzido por brancos e brancas. Com certeza, se Ricardo Amorim fosse um comentarista negro não pensasse como pensa. Ironia: o programa, de um País “racialmente democrático”, é transmitido dos Estados Unidos, mas só possui comentaristas brancos, desde os tempos do saudoso Paulo Francis (os norte-americanos teriam mais cuidado...). Ricardo Amorim não deve ter aprendido a teoria que defende com os brancos daquele País, os quais, hoje, procuram legitimar a sua hegemonia em bases menos simplistas. É possível que ele acredite realmente no que diz. Afinal de contas, economista que é, talvez não ligue para essas “inutilidades” que tomam tempo de pessoas sem mais o que fazer, como sociólogos, antropólogos, etnólogos e que tais. Nesse caso, é também vítima da deformação produzida por uma velha antropologia, orgânica dos interesses colonialistas branco-europeus.    

 

Trago este exemplo porque, quando alguém tenta mostrar que essas idéias não desapareceram do discurso e das práticas sociais, a contestação se faz pronta; e ele serve também para evidenciar que, às vezes, a “branquidade esconsa” descuida-se e aparece inteira, cristalina. Mais: que o número de adeptos do neo-neodarwinismo social vem crescendo. Seus laboratórios são obsessivos na busca de algum achado que possa reabilitar Gobineau, Lombroso, Hitler e outros menos conhecidos. Aliás, a que propósito serviria a pesquisa comentada no programa? E com que finalidade o tema foi colocado em pauta? Será que a pauta foi sugerida por algum produtor ou produtora negro (a) da equipe do programa?

 

Em tempo: é possível que Caio Blinder, quando disse que os orientais tinham melhor desempenho do que os negros norte-americanos por serem imigrantes e pertencerem a famílias de boa condição econômica, talvez estivesse sendo irônico, sabedor do background familiar e escolar de Ricardo Amorim. Seria Amorim originário de alguma família favelada paulista? Quem financiou seus estudos no exterior? Foi a sua família ou alguma instituição que concede bolsas a estudantes brasileiros? Em qualquer dos casos, o seu potencial “genético” teria tido um bom “empurrão”, para usar a expressão de Lucas Mendes. Se beneficiário das duas condições, o “empurrão” teria sido duplo. Ora, ter “carga genética” superior assim...

 

Incrível como, 150 anos depois que o conde de Gobineau decidiu com o seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas'  (Essai sur l’inegalité des races humaines) que as raças eram hierarquizadas mentalmente, um seu seguidor brasileiro o defendesse de forma tão pauperizada.

 

Numa linha diametralmente oposta à de Ricardo Amorim, observa-se também que, de uns tempos para cá, tem aumentado o consenso em torno da ideia de que, em se tratando de humanos, operar com o conceito de raça é um contra-senso. Sustenta-se por toda parte que não existem raças. Ocorre que, entre ser uma posição científica ou ideológica, vai uma grande distância. Posso defender a idéia de forma altruísta, simplesmente por acreditar na ciência e pensando no bem da humanidade, ou posso, mesmo desacreditando nela, defendê-la por interesse egoísta, a fim de, por exemplo, estancar a discussão da questão racial e desqualificar os que apontam desigualdades nesse marco, dentro da lógica de que, não existindo raça, não há falar em racismo nem em discriminação “racial”. Acontece que, existindo ou não, sendo ou não bobagem falar em raça, é preciso não esquecer de que este foi um signo central na idealização da Nação brasileira. Antes, um problema; depois, solução. Que o digam as centenas e centenas de ensaios teóricos, livros didáticos, compêndios de moral e cívica, discursos políticos, músicas populares, sambas-enredo de Carnaval, todos produzidos desde sempre, e bem assim os chamados sambas-exaltação (com destaque para o belíssimo e mundialmente famoso Aquarelado Brasil, de Ari Barroso, de 1939, com o seu “mulato inzoneiro”, a“mãe preta no Serrado” e o “rei Congo no Congado”). E ainda há aqueles que, hoje, negam a existência do racismo com base no argumento de que não existem raças entre os humanos, mas que são frequentemente flagrados falando em democracia “racial”.

 

Ora, não dá para enterrar o passado apenas com golpes de discurso. Não existe mais a Lei de Segurança Nacional proibindo tocar no assunto (a favor dos negros, é claro), nem os Dói-Codi e os DOPS para cuidar dos recalcitrantes. Então, discurso por discurso...   

 

Depois de tudo isso, ninguém estranhe se Lucas Mendes e Ricardo Amorim, na linha dos discursos politicamente corretos, sacados até por loiros e loiras de cabelos sedosos e olhos azuis, negarem a identidade branca e se apresentarem como 'brasileiros' incolores, ou “misturados”, vale dizer, “não-brancos”, com o carcomido chavão: “No Brasil, quem não tem um pouco de sangue negro?” Talvez até evocam remotos ancestrais, bem remotos, negros ou indígenas. Aliás, sem que ninguém o acusasse, Lucas Mendes apresentou defesa prévia ao discordar da discordância (sic) de Caio Blinder: “Eu não vou defender o racismo, não; mas a sua equação não está muito boa”.

 

Quanto ao economista Ricardo Amorim, deve ter compreendido que a genética é tão ou mais complicada que a economia. Talvez um pouco mais. Em vez de se dedicar a estudos genéticos, se é que a eles um dia se dedicou, ou de ficar “sacando”, como ironizou Diogo Mainardi, talvez fosse mais producente, a seu favor, que cuidasse com mais carinho do legado de Camões e Machado de Assis. Aliás, este último com forte “carga genética” negra. 


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