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ESTER DA VILA DO CÉU

(Publicado originariamente em: Servidor das Letras 3: Antologia dos premiados no Concurso Literário do Servidor do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: SARE / FESP, 1993).

 

 

- I –

A Venda

 

    – Bota mais uma, Dona Ester. Bota na conta; no sábado eu acerto tudo.
    – Só mais uma, hein, ó rapaz; não acertaste a semana passada; é a última – esbraveja Ester, enquanto serve mais uma dose de cachaça com seu jeito espalhafatoso. Todos já estão acostumados com suas irreverências e com os palavrões dela e do seu marido, o desbocado do Tanel.
    Ester reina absoluta. Com calculada sensualidade, aguça a imaginação dos fregueses da venda. É uma portuguesa diferente. Não é como as outras, desajeitadas. Quantos não vão ali tomar umas e outras só por causa dela!?
    Embora as mulheres nutram um misto de ciúme e inveja da bonita mulher, não há como evitar que os homens freqüentem a venda dos portugas, pois se situa bem no larguinho que dá para as duas subidas do morro. Além da venda, o arremedo de açougue do seu Domingos, a birosca do Zé do Norte e o ponto do jogo do bicho. 
    – Lá vem a polícia! – grita um dos garotos; como os demais, olheiro voluntário. E começa a correria. Os bicheiros, protegidos pelos moradores, escafedem-se, deixando os policiais a ver navios.
    (Como mudaram os bicheiros! E como mudou a polícia!...)

 

- II -

O Larguinho

 

    O larguinho da Vila do Céu era uma festa permanente. A garotada brincando de pique, de esconde-esconde, de jogar pelada, pião e bola de gude; de soltar cafifa e de pular carniça. Era ali que tomavam corpo os mexericos sobre a filha de dona Fulana que tinha engravidado e ninguém sabia quem era o pai. O Largo, enfim, era o ponto de encontro daquela gente humilde.
    A venda de Tanel e Ester era aonde todo mundo ia buscar a verdura ou os ovos para a fritada do almoço; onde as crianças compravam doce e se empanturravam com as bananas que os galegos vendiam a varejo; onde os homens discutiam sobre o Fla-Flu, falavam da vida dos outros, contavam piadas, cantavam vantagem e disputavam rodadas de cerveja e cachaça na porrinha.

 

- III -

Neguinho Alinhado

 

    Jafé tinha ido longe.
    – Cacete! O malandro agora é escriturário do Cais do Porto!
    – É mesmo?! Mas ele tem o ginasial completo, não tem?
    – Eu sabia que esse cara ia longe. Várias vezes ele faltou ao ensaio da escola só porque tinha prova.
    – Deve tá ganhando uma nota preta!
    Grande avanço, pois nesse pedaço de subúrbio do Rio de Janeiro, a estiva já era uma boa colocação. Ninguém tinha grandes projetos de vida. Quando muito, uma meia-água de tijolo num terreninho próprio e um empreguinho qualquer, de preferência público.
    Preto de boas maneiras, bom de bola e de samba, esguio e elegante, Jafé era a sensação das garotas. Certa vez, num ensaio da escola, duas de suas namoradas (tinha umas cinco) se engalfinharam, e a confusão que se formou foi tamanha que o Presidente teve que mandar suspender o samba. Para o Don Juan foi uma consagração.
    Jafé pouco parava na venda. Só de vez em quando, para um papo rápido com a turma e, quando insistiam muito, tomava um copo de cerveja; dava uma desculpa e ia-se embora.
    – Aí pessoal, não me levem a mal; é que tenho um compromisso; vou deixar duas pagas, hein. Até!
    O noivado com Celina – a mulata mais bonita, e uma das contendoras da briga do ensaio – eternizando-se. Namoravam-se desde crianças.
    – Quando é o casório, Jafé? – provocam os amigos na frente de Celina. Ela não diz nada; sonha...
    E o grande dia chega. Tudo bonitinho: véu, grinalda, igreja, casinha arrumada, lua de mel. Aquele acontecimento.
    – A Lina é que deu sorte! – suspiram as moças.   

 

- IV -

O Mijo do Garoto

 

    – Olha aí, pessoal! Nasceu o pimpolho. Dona Ester, bota cerveja pra rapaziada, que hoje é tudo por minha conta. Vamos beber o mijo do garoto – sentencia Jafé, todo orgulhoso.
    A lusitana aproveita a ocasião para aumentar a féria. Não só empurra bebida na turma goela abaixo como desvela-se em gentilezas para com os desocupados e bêbados que, habitualmente, ficam por ali à espera de que alguém lhes pague uma uca. Serve-os sem parcimônia. Ela mesma entra na comemoração. Até se esquece de que não vai com a cara de Jafé, que sempre achou metido a besta.
    E lá está Ester, copo de cerveja na mão, cheia de atenções com o “garanhão”, dando-lhe os parabéns a todo instante, com abraços cada vez mais efusivos. Tendo aumentado a féria... e carregado na conta, Ester tem motivos redobrados para estar alegre.   
    – Que pretinho cheiroso!...

 

- V -

O Ciúme

 

    Celina não está gostando nada da mudança de hábitos de Jafé. Por que razão, todos os dias, ao chegar do serviço, tem que passar na venda antes de jantar? 
    – Qual é o problema, Lina? O pessoal vai pensar que eu sou metido a besta. O que é que tem dar uma chegada lá? Todo mundo vai.
    – Você sabe que eu não gosto daquela galega, aquela branca azeda. E tem mais: não vou ficar esquentando a comida toda hora; se demorar vai comer comida fria.
    – Deixa de bobagem, pretinha. Você está é com ciúme. Como é que pode passar uma coisa dessas pela sua cabeça? A dona Ester é uma boa pessoa. Ela brinca com todo mundo. Deixa de bobagem. Vem cá minha nega! Vem cá!
    Como resistir à lábia de Jafé? Celina derrete-se toda, e Jafé capricha... E Celina entrega-se...
    Todo dia a mesma coisa, e Jafé chegando cada vez mais tarde. Agora só vai para casa quando a venda fecha, lá pelas nove da noite. Muitas brigas no início, mas Celina acaba acostumando-se com a situação. Só fica aborrecida mesmo quando o marido se excede na cerveja, pois vai direto dormir, e no dia seguinte é a maior dificuldade para fazê-lo levantar para ir trabalhar.

 
- VI -


Rivais, Elas

 

     Como as demais mulheres do lugar, Celina também tem que comprar uma ou outra coisa na venda. Mas faz isto na parte da manhã, sendo atendida por Tanel. Às vezes, todavia, não tem jeito. Ou pede a um garoto para comprar o que deseja ou tem que, ela mesma, ir lá no horário em que Ester costuma estar, substituindo o marido para que este vá almoçar e descansar um pouco.
    – Ó Lina, como está o menino?
    – Vai muito bem, dona Ester.
    – Olha só que gracinha! Tão espertinho; é a cara do pai. O Jafé me disse que ele passa a noite toda a chorar, pois não?
    – É sim... Me dá meio quilo de tomate e uma dúzia de ovos – corta Celina.
    Celina sente-se ultrajada. Que intimidade é essa? Jafé vai à venda conversar com os colegas ou com essa galega oferecida. “Hoje ele me paga!”.
    Ester nota a contrariedade da moça, que, mesmo de cara feia, lhe causa uma certa inveja. Imagina-se mais jovem e mais morena. “Ah! se eu soubesse sambar como ela!...”

 

- VII -

Ó crioulo, passas aí em casa

 

     Além de atraente, Ester é insinuante. Sabe que é cobiçada pelos homens e faz com que cada um se sinta correspondido. Extremamente vaidosa, gosta de passear e usar roupas finas. Tanel, aos quarenta e oito anos, mais parece seu pai. O trabalho pesado, carregando caixas e caixas na cabeça, o envelheceu precocemente. Trabalha o dia todo, só indo em casa, nos fundos da venda, para o almoço. Depois do jantar, senta-se defronte à televisão para, no momento seguinte, cair no sono, cansado. É que lá pelas três da madrugada tem que estar de pé. Hora de ir ao mercado comprar verduras, legumes e frutas para abastecer a venda. Faz isto na sua fubica, que só falta desmontar quando passa num buraco. Antes das seis, quando então abre o estabelecimento, tem que fazer a limpeza e arrumar as mercadorias, inclusive as que tenham sido entregues na véspera. Tudo sozinho.
    E lá está Tanel, divertindo-se com o próprio trabalho, durante o qual recheia os diálogos com a freguesia com uma centena de palavrões e xingamentos: “ô rapaz, queres levar levas; não queres, não levas”; “ora, vai-te pra merda”; “ô seu veado, não me vais pagar as cachaças de ontem?”; “sabes da última do brasileiro?” E lá vem uma de suas piadas, de fazer corar até uma dama de cabaré.
    Como é possível alguém ter uma vida tão dura e só viver rindo, feliz da vida? É bem verdade que Tanel tem uma mulher jovem e bonita; que a venda vai de vento em popa; e que o terreno da esquina já está praticamente comprado. Mas mesmo assim...
    Esta rotina de trabalho incessante só é quebrada aos domingos à tarde, quando não abre a venda. É o dia da sueca com meia dúzia de parceiros cativos.
    – Ó crioulo, passas aí em casa que a mulher quer falar contigo.
    – Quando, seu Tanel – tropeça Jafé.
    – Ora, cacete, quando? Por que não vais agora?
    Jafé hesita, encabulado; e entra.

 

- VIII -

A Sueca

 

    Celina não quer acreditar. O mexerico está em toda a Vila. As coincidências...
    – Que é isso, Lina! É pura consideração do seu Tanel me chamar pra jogar sueca. Você sabe que eu estou resolvendo uns documentos dele... Aí eles me consideram. O seu Tanel já até falou pra levar você.
    Celina altera a voz:
    – Vê lá se eu me passo! Aquilo lá é uma pouca-vergonha. Aquela branca azeda pensa que é muito boa e se abre pra todo mundo; e aquele corno safado finge que não sabe de nada. Safado! É uma sem-vergonhice mesmo.
    – Que é isso, Celina? – o homem repreende a mulher, demonstrando indignação.
    – É isso mesmo; e você é outro sem-vergonha. Safado! – retruca Celina, já aos berros.
    – Não fala assim comigo, porra!, se não eu... nem sei...
    Pela primeira vez, a jovem esposa tem medo do marido, ao vê-lo levantar a mão, fora de si.
    – ... que desaforo!
    E lá se vai Jafé para a casa dos lusos.
    As coincidências...
    A repartição está com uns serviços atrasados, e Jafé precisa, de quando em vez, fazer serão aos sábados. Basta, entretanto, que passe em frente à venda, em direção à Estação, e meia hora depois lá vai Ester, toda arrumada, visitar a irmã...

 

- IX -

Carne Seca com Abóbora

 

     Naquele domingo, a sueca rolou até a madrugada. Embora morasse a menos de quinhentos metros, na subida do morro, Jafé dormiu na casa dos lusos. De lá, na manhã seguinte, saiu direto para o serviço.
     Agora, para desespero de Celina, quase todo domingo é a mesma coisa. Resolve mudar de comportamento na tentativa de prender o marido em casa. Passa a tratá-lo melhor ainda. Capricha nas comidas e em tudo o mais que ele gosta.
    – Querido, hoje tem carne seca com abóbora; vê se chega um pouquinho mais cedo, tá bem?
    Não era possível que aquela branca descascada fosse melhor do que ela... E Celina continuava pensando alto: “- O que é que essa galega tem que eu não tenho? O que é que ela faz que eu não faço?... Só porque é branca?!...”
    Jafé chega em casa à noite e encontra a mulher perfumada e melosa:
    - Vamos dormir mais cedo hoje, meu bem; estou doidinha...
     Jafé não nega fogo.

- X -

Campeão da Sueca

 

    Celina não sabe mais o que fazer. Ester agora organizou umas rodadas de sueca aos sábados à noite. E Jafé tornou-se um campeão, que não pode faltar. Deixou até de ir aos ensaios da escola.
    A pobre Celina fica em casa, chorando, enquanto acaricia o filho. Perde cinco quilos em dois meses. Apesar da traição de Jafé, está disposta a esquecer tudo.
    Nada! Jafé cada vez mais envolve-se com aquela mulher fascinante, e só chega em casa de cara feia. Passa dias sem falar com a esposa. Nem mesmo as artimanhas femininas de Celina o tocam mais. Muito mal faz um carinho no filho.

 

- XI -

Escândalo

 

    Naquele sábado, Celina desespera-se e toma uma decisão. Faz lembrar aquela Celina que acabou com o samba. Parte para a frente da casa de Ester e arma o maior escândalo, xingando a portuguesa de tudo o que lhe vem à cabeça, não esquecendo de Tanel:
    – Sua galinha! Deixa meu homem em paz. Piranha! E esse sem vergonha desse corno sabido. Português safado! Piranha! Corno!...
    Não fora o fato de ter levado o filho, de apenas um ano, naturalmente para sensibilizar a vizinhança, é bem possível que as duas se tivessem matado.
    Jafé fica sem ação. Sente-se envergonhado e apressa-se em pedir desculpas aos donos da casa, alegando que a mulher não está bem da cabeça. Tanel e Ester prontamente o tranqüilizam, e até demonstram certa pena dele por ter que conviver com uma mulher tão desequilibrada. Coitado!
    Jafé pega suas coisas e sai de casa. Ester convence Tanel a alugar o quarto anexo da casa ao rapaz.
    – Ó homem, agora é que temos que provar que não tem nada. O pobre diabo não merecia isso. Se o gajo sumir daqui é que vão pensar mal. E ainda tem o aluguel...
    Celina perde a força para lutar. Tem convicção, entretanto, de que tal situação não durará muito. Não é possível que Jafé, tão orgulhoso, possa viver como um simples agregado naquela casa por muito tempo. Não tardará, e ele voltará correndo para a sua companhia, reconhecendo que ela é o seu verdadeiro amor.

 

- XII -

Alcovitagem

 

     Decididamente, Jafé troca o casebre simples pelo conforto da casa de Ester. Quem vê as teias de aranha da venda, sequer imagina o requinte da casa, bem ali nos fundos. O quarto de Ester parece o de uma princesa. Tudo bonito. Jafé sente-se um rei. Enreda-se tanto que começa a faltar ao serviço, até que o abandona definitivamente.
    Mas não é problema. Ester tem o suficiente para as roupas finas, os lugares caros, os restaurantes “da cidade”, as jóias, o belo relógio, o cordão de ouro com a medalha de São Jorge; enfim, o dinheiro farto.
    Jafé não consegue esconder o prazer de ser “o outro”, o amante, a quem a mulher cobiçada do lugar escolheu...
    – Aí, hein, Jafé; a portuguesa tá gamada, hein!
    – Que é isso rapaz. Não existe nada – desaprova com um sorriso que mais diz sim do que não.
    Ester, mulher dinâmica e decidida, é quem dirige não só os negócios (a venda e os aluguéis) como também a casa, que cuida com a ajuda da preta Das Dores, dublê de empregada e alcoviteira, e do filho Carlos Alberto, o Carlinhos.
    – Ó Das Dores – cochicha Ester. – Diga ao Jafé pra vir pro meu quarto. E tu ficas aí pra ver se chega alguém.
    Carlinhos, filho de Ester e Tanel, aos oito anos de idade não compreende bem o que acontece. O “tio” Jafé é preto mas manda na sua mãe, e mesmo, às vezes, bate nela; e ela não conta nada a Tanel. E ele, Carlinhos, também não conta nada ao pai...

 

- XIII -

Samba-Enredo da Saudade

 

     – Chega, Ester!... Chega! Assim você me mata... – suspira Jafé, extenuado.
Ester é um mundo novo, cheio de surpresas. Diferente, delicioso... Jafé não quer outra vida. Durante o dia, nos períodos em que Tanel vai ao mercado ou está na venda, deleita-se com Ester na casa. Quando esta sai, fica doido que ela volte logo. À noite, conforma-se em dormir no seu quarto, mudado para o final do corredor, dentro de casa, no lado oposto ao quarto do casal. Dorme sozinho, imaginando o que não possa estar acontecendo bem ali ao lado, ansioso para que amanheça. Aquela situação, ao mesmo tempo em que o acabrunha, o excita. Mal Tanel sai, Ester, insaciável, vai para o quarto do amante, ou vice-versa. Tanel nunca volta...
     Jafé transforma-se em objeto de uso, disponível, de Ester, a qual continua a dar vazão à sua “fúria”, tendo mais um caso aqui, outro ali. Jafé sente que já não tem a exclusividade das atenções. Primeiro tem ciúmes; depois desconfia; e finalmente tem certeza. As surras que aplica na amante não adiantam. Ela parece gostar, excita-se com elas.
    E ele, que tinha se resignado a viver à sombra de Ester? Onde estão os amigos? Nem tem mais cara de aparecer na escola, bem ali ao lado. De tanto ouvir, pega-se às vezes assoviando o novo samba-enredo, mas nem tem idéia da letra. Onde estará Celina? Que saudade! Celina sumira com o filho. Jafé reduzira o seu espaço aos domínios de Ester. Tão somente um apêndice dela.
    De há muito aquela situação incômoda o angustia. Já não faz uso apenas de cerveja. Para esquecer a própria sina só consegue dormir depois de umas boas doses de whisky. Agora, prefere a cachaça. “É muito melhor!...”, pensa. Tudo na intenção de Ester.
    – Com quem você saiu, sua piranha!
    – Fui comprar umas coisas com a Das Dores. O que é que tu tens com isso?
    Jafé arde de ciúmes e ódio. Passa a espancar Ester com mais freqüência. Esta, diante de tais “provas de amor”, não consegue esconder uma ponta de orgulho ao mostrar os hematomas às amigas. A Tanel, dá uma desculpa qualquer. Ora caiu, ora bateu com a cara na parede. Ora seu olho está roxo por causa de alguma alergia.
    – Tu precisas procurar um médico, ó mulher! Pede ao Jafé para ir contigo – aconselha Tanel.

 
- XIV -

Outro Escândalo. O Leão Feroz

 

     Ester já não agüenta mais apanhar. O amante, toda vez que abusa da bebida, a espanca exemplarmente. Não dá mais para esconder de Tanel. O marido, então, revolta-se:
    – Não quero nem conversa. Tudo isso acontece por causa da bebida. O único jeito é esse merda parar de beber. Não quero mais bebida aqui dentro...
    Mas Jafé não pára. Nem de beber nem de bater. A solução, para Ester, depois dos mais de seis anos daquele convívio promíscuo, é que ele vá embora. Ir para onde? Um bêbado, esquelético e envelhecido aos trinta e três anos de idade. Sua família nunca o perdoou pelo que fez a Celina. Rompeu com ele.
    Ester percebe que não tem saída. Além disso, tendo envolvido o filho nas suas aventuras, acaba transformando-o em alcoviteiro e encobridor dos seus casos, função na qual é coadjuvado por Das Dores. Ela tem que procurar uma solução que não prejudique nem a ela nem a Tanel, e que salve o filho; e que não seja muito ruim para Jafé.
    O agregado não respeita mais ninguém. Nos poucos momentos de sobriedade, cai em depressão profunda, com o olhar fixo no nada, e recolhe-se. Bêbado, instala-se como dono da casa. Não se conforma com a escassez de carinhos daquela mulher que tanto o perseguiu... Não se contenta mais em ir ao quarto de Ester furtivamente, como fazia nos velhos tempos. Ela que mande Tanel sair, que ele vai dormir ali, com ela.
    Agora é o próprio Tanel que apanha, e é Carlinhos que também apanha e não tem os seus apelos histéricos atendidos por Jafé. (Ora, Jafé vira Carlinhos pequeno; era como se fosse um parente...)
    Para Tanel, a solução é chamar a polícia. Mas o que dizer? É convencido pela mulher a buscar outra solução. E tudo se recompõe.
    Ester tenta mostrar a Jafé que é melhor ele ir embora.
    – Por favor, Jafé, já não temos mais nada. Vou te dar um bom dinheiro e tu ficas com aquela casinha desocupada lá da Rua de Cima. E sempre que precisares... tu sabes que não faço caso...
    O sentimento de ser descartado como um sapato velho aumenta-lhe o ódio. Desta vez Ester vai para o hospital, toda quebrada.
    Jafé vai preso. Mas os policiais não entendem aquela história confusa. Ester não o acusa. Pelo contrário, defende-o. Tanel não consegue esconder que sabe toda a verdade. No dia seguinte, Ester, ainda capengando e com os olhos arroxeados, vai buscar Jafé na Delegacia.
    – Pode deixar, seu doutor, eu levo ele pra casa. Ele não é bandido não. Eu quero retirar a queixa. É que quando ele bebe... O senhor sabe, pois não?
    Ester tem a esperança de que a prisão possa surtir algum efeito.
    – Estás vendo! Se não sou eu tu ficas lá a mofar. E ias para a cadeia. Se acontece de novo...
    Durante alguns dias, Jafé melhora sensivelmente. Mas só por uns dias.
    Novo porre. Desta vez, com uma barra de ferro na mão, coloca Ester, Tanel, Das Dores e Carlinhos para fora, na rua. Ninguém da vizinhança aparece, mas todos vêem... A solução novamente é chamar a polícia; porém Tanel, humilhado, emudece. A vergonha agora é pública...
    Ester prefere esperar que Jafé se acalme, o que acontece pela madrugada. Todos entram. O “leão” adormecera.
    A partir daí, o velho Tanel, cansado e doente, prefere ensimesmar-se e viver como autista. Não fala. Só come, dorme, e chora. E não trabalha mais.
    A alegria da venda desaparece. Ester e Carlinhos têm que se revezar para levar o negócio adiante. Só raramente Ester lembra aquela mulher alegre e encantadora de dez anos antes. Envelhecera, todavia, vinte.

 

- XV -

Rejeição

 


    Jafé se sente cada vez mais rejeitado, embora Ester procure contornar, tratando-o com alguma atenção. Ele sabe que no fundo é um intruso; e se comporta como um cão vadio que não pode entrar na sala. Em certos momentos, todavia, animado pelo álcool, quer expulsar Tanel do seu quarto conjugal e assumir o lugar do português à força, para desespero de Ester. Não porque seja difícil para ela fazer a troca, e sim porque o homem que lhe dera tanto prazer, agora lhe causa asco.
    Ester resiste. Tanel, cabisbaixo, chora. Ester e Jafé travam uma áspera discussão, como se Tanel não estivesse ali. Jafé esbraveja que ela o fez largar tudo, e que vai ter que ficar com ele até o fim. Ester diz que ele é que é o culpado, porque resolveu ser um bêbado inútil. Aos berros, um xinga o outro de tudo o que lhes vem à cabeça. “Sua galinha, sua puta safada, piranha!...”, Jafé não poupa adjetivos para ofendê-la. Ester não faz por menos: “E tu, seu nego sujo, brocha, tu és um merda mesmo...!”.
    Nova surra. Carlinhos corre para acudir a mãe, grita por socorro e implora a Jafé para que não bata mais nela. Jafé o empurra e dá-lhe um tapa na cara.
    – Sai daqui, seu veado nojento.
    Ester fica fora de si. Acuada no canto do quarto, decide, pela primeira vez, enfrentar Jafé. Joga-lhe o rádio de cabeceira na cara. O valentão cai no chão e, sangrando na testa, não consegue levantar-se. Olha para Ester, que já empunha o abajur, pronta para desferir-lhe o segundo golpe. Percebe que ela está disposta a tudo. Ainda meio tonto, capitula. Lágrimas escorrem por sua face. É socorrido pela própria Ester, que lhe ministra água e lhe faz um curativo. Ajudada pelo filho, conduz o agregado ao seu quarto, para onde vai cambaleante.
    – Você me paga... Você me paga... Você me paga... – repete Jafé, com a voz carregada de ódio, dor e tristeza.

 

- XVI -

Maquinações

 

    Jafé passa alguns dias com o curativo, sem beber gota de álcool. Calado, misterioso. Ester também. Como se estivessem maquinando alguma coisa. No quinto dia, ele volta a beber logo de manhã. Bebe, mas não fica agressivo como antes. Ester observa, preocupada. “O que será que esse merda está aprontando?”, pensa. “Será que vai começar tudo de novo?” Na hora do almoço, ele permanece no seu quarto. Não vai almoçar na copa, como de costume. Ester almoça na venda, como já vinha fazendo desde a última surra.    
    Vem a noite. Só agora Jafé resolve comer, depois de muita insistência de Ester e Das Dores. Come sozinho em seu quarto o prato-feito levado por elas. Mais tarde, todos se recolhem, como de hábito. E o samba comendo solto lá fora na escola. Amanhece o dia. Jafé permanece no seu quarto. Não sai para o café, nem para o almoço. Às duas da tarde, Das Dores o chama insistentemente para almoçar. Ele não sai, e não responde...

 

- XVII -

Enterro

 

    Os familiares de Jafé providenciam o sepultamento. Um primo chega a falar em autópsia. “Que morte mais estranha!...”
    Na hora do enterro, para fugir à hostilidade da família do morto e dos demais acompanhantes, Ester tem que ficar à distância. Perto, chorando convulsivamente e acompanhando o caixão o tempo todo, até a sepultura, Celina e o seu filho com Jafé, agora com nove anos de idade. De longe, o novo companheiro de Celina, com o qual tivera mais dois filhos, dá-lhe apoio...


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