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CARMEM DA VILA DO CÉU

 

- I -

 

      Conversam na cozinha. Mais que conversar, discutem, como sempre. Alguém que não as conheça há de pensar que estão brigando de verdade.
      – Não teima, faz como eu te mandei, ensopado. Que coisa! Você só faz o que quer, não é? Tudo tem que fritar, fritar. Olha só como a cozinha fica toda sebenta – Dininha, a dona da casa, passa o dedo na parede para mostrar a sujeira.
      – Que droga! Não se pode fazer nada em paz. Sabe de uma coisa: eu faço do meu jeito, se não gostar não gostou – retruca Carmem, com o seu jeito espalhafatoso, a cara toda pintada já de manhã.
      – Mas que desaforo! Eu ainda te pego de jeito, hein! Você vai ver. Em vez de pensar no serviço só fica pensando em se emperequetar.
      – É claro! Hoje é sexta, esqueceu? Ontem chegou um navio americano na Praça Mauá. Vou treinar o inglês com os marujos: How do you do, I love you – debocha, só para provocar Dininha.
      – Sem vergonha! E você ainda fala, não é?
      Da sala, Rafa, nascido Rafael, ouve aquela costumeira arenga. Sabia que não era nada. Como de hábito, as duas não tinham chegado a um acordo sobre o almoço do dia. E já passava das dez. Carmem só queria fazer bife acebolado, mesmo sabendo que o dono da casa, seu João Bombeiro, detestava cebola. “Bota só um pouquinho e refoga bem”, recomendava Dininha. E tome bife, até de carne de pescoço. “É só bater bem que a carne fica macia, gente!”, dizia Carmem, surrando a carne com o socador de alho. Seu João comia o que viesse, sem reclamar, a não ser da cebola. “Eu já não disse pra não botar cebola pra mim, criatura?” E Carmem: “Ué, é só separar e botar no canto do prato”, respondia com simulado desdém, mais para ouvir seu João repetir que ainda ia dar-lhe uma sova. Pura encenação. Sabia fazer outras coisas, mas tinha preguiça. Mais tempo para ficar no portão, aos mexericos com as vizinhas.
      – Que negócio é esse, rapaz? – interfere Rafa, neto de Dininha, já na porta da cozinha, também fingindo levar a sério a maneira como Carmem se dirigia à sua avó. – Isso é jeito de você falar com a Dininha! E o respeito, rapaz? – Rafa enfatiza a palavra rapaz só para irritá-la.
      – Não se meta em conversa de mulher!

 

- II -

 

      Quando Amândio começou a freqüentar a casa, Rafa era ainda menino, de seus sete ou oito anos de idade, e ele, um rapaz. Moreno acaboclado, um metro e setenta e poucos de altura, cabelos crespos assentados com pasta Glostora e sempre alinhado, chamava a atenção das moças. “Um pão!”, suspiravam, na gíria da moda. E lá estava ele no aniversário de seu João Bombeiro, que todo ano dava uma grande festa no dia de São João. Foi levado por Julinho, filho mais novo do casal, com quem estreitou amizade nos ensaios do bloco Cacique de Ramos. Saíam na mesma ala. Passou a aparecer de vez em quando. Gostava do ambiente daquela casa sempre cheia de gente; e todos gostavam das suas imitações de Carmem Miranda, Caubi Peixoto e Ângela Maria. Além de Julinho, estavam sempre ali: seu irmão mais velho, com a mulher e os filhos, e a irmã, com as filhas. Cinco crianças, duas meninas e três meninos, em escadinha. Rafa era o mais velho. Tudo sem contar o entra-e-sai de outras crianças e das vizinhas, além da presença constante dos indefectíveis amigos da sueca de João Bombeiro: seu Deocleciano, campeão da bazófia, e Tonico da Viola, sempre pronto a acompanhar com seu arremedo de violão, não raro faltando cordas, quem quer que se aventurasse a cantar um samba-canção ou um bolero com ele. “Um bom tocador toca até com uma corda só”, repetia. Enfim, uma confusão.
      – Cadê aquele seu colega engraçado? Manda ele vir aí no sábado pro aniversário do Rafinha. É só um bolinho, mas teu pai chamou o seu Tonico e o rapaz do pandeiro – Dininha anima o filho Julinho. E lá estava Amândio, que passou a ser a principal atração das festas. “Por favor, seu Tonico, sem violão”.

 

- III -

 

      Por essa época, Amândio ainda morava na casa de sua madrinha de crisma, dona Zulmira, a tia Zu, na parte mais alta do morro. Num certo domingo à noitinha, aos prantos, sem ter conseguido retirar toda a purpurina da pálpebra, chega à casa de Dininha com uma trouxa de roupa e pede para dormir aquela noite. Não deu maiores explicações. Apenas que não ia mais voltar para a casa da madrinha. Garantiu que, no dia seguinte, daria um jeito. Ele já tinha dormido lá num sábado de chuva torrencial quando, tendo ficado tarde para ir embora, acabou pernoitando, não sem antes dar um show, com rebolado e tudo, e meneios das mãos e dos ombros, como fazia Carmem Miranda.

      Uma noite, duas, três. Saía e voltava. Dizia que o emprego de garçom num botequim da Estação de Ramos estava praticamente certo. Já tinha até visto um quartinho para alugar. Uma semana, duas. Enquanto isso, ajudava nos serviços da casa, fosse carregando material para acabar a laje da área dos fundos, fosse auxiliando nos afazeres domésticos. Todos se acomodaram com a situação, sobretudo Dininha. Agora tinha alguém que a ajudasse de fato, pois Lili, a sobrinha que criava desde os cinco anos, mal completara quinze e só queria saber de rua e namoro. “Uma peste, igual à mãe”, reclamava. Com o tempo, já como Carmem, Amândio tomou conta da cozinha. Rafa, agora adulto, gostava de provocar os seus trejeitos. E ele, ou melhor, ela sabia disso, e exagerava.

 

- IV -

 

      – Não se meta em conversa de mulher – o desaforado Amândio responde à provocação de Rafa. Responde em tom de blague, a voz afinada artificialmente, acompanhada de uma rabanada. Rafa curva-se à sua presença de espírito. Ambos riem. Dininha olha para Rafa, rindo também, e dá de ombros. Como se dissesse: “Está vendo, Rafinha, ele está cada vez mais atrevido”.

      Na verdade, tudo aquilo era como um script. Rafa e Dininha gostavam de provocar Carmem. Carmem gostava de chamar a atenção para si e provocar a todos. “Não se meta em conversa de mulher!”. Sabia o efeito daquelas palavras. Definitivamente, Amândio assumira a condição feminina, o que, naqueles tempos, era grande ousadia. Em casa, maquiava-se toda. Adorava purpurina. Às vezes punha uma blusa mais ousada, mas ia, no máximo, até a venda, ali onde todos já estavam acostumados com o seu modo de ser. Era a Carmem, a Carmem Miranda, ou o Carmem Miranda. Porém, quando ia à Estação ou ao centro da cidade, portava-se como Amândio dos Santos Durão. Sabia que se desse na pinta no lugar errado poderia levar uma surra, como quase aconteceu certa feita dentro do ônibus, vindo do centro da cidade. Dois passageiros, ao notarem as suas sobrancelhas aparadas, começaram a provocá-lo, chamando-o de bicha louca, veado e outros xingamentos, enquanto o cobrador gargalhava. Já se preparavam para agredi-lo quando ele se levantou e, de um salto, aos berros, partiu enfurecido para cima deles, botando-os para correr do ônibus em dois tempos. Sobrou para o cobrador, alvo de um tapa tão forte que lhe arrancou sangue do nariz. Terminaram na delegacia, para onde o motorista conduziu o ônibus com o valentão. Mil explicações, mas safou-se mesmo de ser enquadrado e permanecer preso por ter cantado e dançado imitando Carmem Miranda para os policiais. “Um show, o delegado ficou babando!”, vangloriava-se.


      Passava a semana contando as histórias dos “bofes” que apareciam na Cinelândia. Em casa, uns, como Dininha, Julinho, Rafa e João Bombeiro, só a chamavam de Amândio, para sua irritação. “Meu nome é Carmem, eu já falei; vocês fazem de sacanagem; onde já se viu, uma mulher ter nome de Amândio?”, falava e ria, revirando os olhos. Acostumou-se. Detestava o sobrenome Durão. Gostava mesmo era de ser chamado de Carmem e de ser referido por ela.

      O “Carmem Miranda” surgiu nos tempos em que, ainda adolescente e escondido da madrinha, participava de shows em clubes do subúrbio da Leopoldina, imitando a famosa cantora e atriz de cinema. Muitos sequer sabiam o seu verdadeiro nome. “Carmem Miranda por quê?” Quando alguém duvidava dos seus dotes artísticos, não fazia por menos. “Está pensando o quê? Eu rebolo melhor do que qualquer mulher, quer ver?”, e fazia uma apresentação particular para quem duvidasse. Tinha razão, era mestre no requebrado. Parecia ter molas nos quadris.

 

- V -

 

      Na verdade, Amândio tinha sido expulso da casa da madrinha, com quem morava desde os dez anos de idade, quando sua mãe, morena bonita que trabalhava como caixa numa casa noturna em Copacabana, preferiu o novo homem ao filho. Aquele garoto só a atrapalhava, antes mesmo de nascer. Não era para ter engravidado, motivo pelo qual o pai dele sumiu, racionalizava. Enquanto estava no colégio interno até que dava para agüentar. Não devia era ter deixado ele nascer.

      – Ou ele ou eu – o homem mandou que ela escolhesse. Já estava cansado da gozação da rapaziada do samba.

      A mãe de Amândio pediu à comadre – tinham sido vizinhas no morro, tempo em que iam juntas aos programas de auditório da Rádio Nacional – que ficasse com o afilhado por uns tempos, até que ela arranjasse um outro colégio interno. Alegou que não dava para cuidar direito dele, pois tinha que trabalhar de dia e de noite. Enquanto isso, ajudaria nas despesas. Menos de seis meses depois, no entanto, sumiu. A única coisa que dona Zulmira ficou sabendo é que a comadre se mudara com o homem do antigo quarto-e-sala, na Rua do Catete, próximo ao Largo da Glória. Jamais deu notícia.

      O menino foi ficando com a madrinha, que não tivera filhos e residia só com o marido, seu Oscar ‘Comissário’, na verdade guarda-civil do Distrito Federal. Amândio ajudava no serviço da casa, depois que voltava da escola, do outro lado do morro. Varria a casa e o quintal, cuidava do cachorro e dos passarinhos, carregava água e lavava a louça. “Tudo que ele faz é bem feito; já viu minhas panelas como ficam bem areadas?”, gabava-se dona Zulmira. Só não se conformava com o sumiço da comadre. Já tinha feito de tudo para encontrá-la, em vão. Corria o boato de que tinha ido tentar a vida como dançarina em São Paulo.

 

- VI -

 

      Dona Zulmira parecia não querer ver o que estava claro diante dos seus olhos. 
      – Deixa de ser maldoso, homem. É o jeito do menino. O que é que tem ele brincar com as meninas? São todos da mesma idade. Ele não gosta de jogar bola, ora. Vocês vêem pecado em tudo.
      – E esse negócio de ir caçar passarinho na capineira com aquele garoto grandão lá de cima? É sempre a mesma coisa – replica seu Oscar.

      Embora fingisse não levar a sério as suspeitas do ‘Comissário’, nem as insinuações dos vizinhos, a madrinha vivia às turras com o afilhado. “Tenha modos de rapaz, Mandinho” repetia. “Homem com homem vira lobisomem!”, amedrontava-o. Amândio tinha medo de ir para o inferno, e não tardou que aparecesse na Vila com uma bonita jovem, morena, cabelos longos e anca empinada. Uma graça. Fez questão de circular com ela e apresentar a quem encontrasse. Praticamente noivos, dizia.

      – Já viu a namorada do Amândio? Está vendo, e todo mundo pensando mal do rapaz – comentavam na Vila. Orgulhosa, a madrinha não falava em outra coisa. Agora ia calar a boca de muita gente. Enfim, Amândio decidira ser Amândio. Mudou até a maneira de falar, empostando a voz para reforçar o grave. De bigodinho e costeletas à toureiro espanhol, passou a pisar firme. Enfim, foi Amândio por um bom tempo, cerca de um ano. Não apareceu mais com a moça na Vila, mas continuou com a história do noivado.

 

- VII -

 

      – Que diabo é isso, Amândio? – grita a madrinha. – Você endoidou?
      Que susto! Amândio perde o fôlego e a fala, e quase cai para trás. Entra em pânico e encolhe-se todo. Tenta sair correndo do quarto, tropeça na borda da cama, atrapalha-se e acaba torcendo o tornozelo direito, o que não impede seu Oscar, aos gritos, de dar-lhe um safanão que o projeta no chão da sala. “Seu veado sujo!... Viu, dona Zulmira Helena?”
      – Vamos, sem-vergonha, tira logo esse sapato e bota uma roupa, que eu não quero safadeza aqui. Olha, eu te avisei, não avisei? Vamos, arruma logo as suas coisas e some – dona Zulmira sai atrás dele, agarra-o pelo pescoço e só não o estrangula porque é contida pelo marido. – Agora eu sei por que a tua mãe sumiu!

      Na verdade, Amândio não contava que a madrinha e o marido retornassem tão cedo. Ela lhe dissera que iria visitar a irmã, internada no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, e que só voltaria no fim da tarde. Por alguma razão, no entanto, voltou muito antes. Amândio é surpreendido no quarto do casal, de sunga, todo maquiado, enormes brincos, com o sapato de salto alto da madrinha, requebrando-se defronte do espelho, a vitrola no último volume ao som de “O que é que a baiana tem?”, na voz de Carmem Miranda. Em prantos, gaguejante, tenta justificar-se.
      – Tia Zu, eu só estava ensaiando... Vai ter um show de calouros em Olaria, e eles acham... quer dizer... que eu canto igualzinho à Carmem Miranda. Eu vou imitar. Eu não disse nada pra senhora porque sabia que a senhora...
      – Que ensaio, que nada – atalha a madrinha. – Você está pensando que eu sou besta? Olha, essa história está muito mal contada. Por que você não trouxe mais aquela moça aqui? Você sempre dá uma desculpa.
      – Tá bem, tia... Ai meu Deus!... Me perdoa, tia. Já tem seis meses que não deu mais pra continuar. O pai dela me fez umas perguntas. Disse que me viram na Cinelândia. Tia, eu não tenho culpa, eu sou assim. Vocês não entendem; querem que eu fique fingindo. Ai Deus, por que não me mata logo?! Ai...

      Foi então que recorreu a Dininha. É possível que sua intenção fosse realmente dormir na casa dela só aquela noite, mas foi ficando, ficando, e ali permaneceu até os cinqüenta anos de idade, quando, tendo ido à casa de Rafa, de lá saiu e nunca mais se teve notícia dele.

      Da mesma forma como foi adotado por Dininha, passou a tratá-la como mãe, e tomou a família dela como se fosse sua. Anos depois, as crianças da nova geração da família chamavam-no com naturalidade de tio Carmem.

 

- VIII -

 

      Agora Amândio era uma pessoa alegre. Parecia ter sublimado a angústia de nunca mais ter tido notícia da mãe. Mas não era verdade. Já adolescente, cismou que tinha de encontrá-la. Vivia sonhando com ela. Não era possível que ninguém soubesse do seu paradeiro. Ou será que tinha morrido? Apavorava-se só de pensar nessa hipótese, o coração disparado. A única coisa em que não queria acreditar é que tivesse sido abandonado por ela, como sua madrinha vivia dizendo. “Aquela egoísta”. Chorava e chorava às escondidas. Chegou a matar uma semana inteira de aulas na esperança de encontrá-la. Mesmo sabendo que a mãe tinha se mudado, ia para o Largo da Glória e ficava por ali observando. Passava em frente do prédio onde tinham morado, olhava, olhava. Via-se no seu interior ao lado da mãe... No Largo, mulheres parecidas com ela, morena-jambo, andar aprumado, cabelos lisos e negros sobre os ombros. “Será ela?”, cansou de se perguntar. Aproximava-se, o coração querendo saltar do peito, olhava de perto, de frente, e... nada. Nunca era ela. “O que foi, garoto? Sai daqui, senão...”, uma delas o pôs para correr, empunhando a sombrinha. Lembrou-se de ter ido com a mãe duas vezes a um Centro Espírita na subida do Morro de São Carlos, cuja mãe-de-santo tinha a reputação de cortar demandas e predizer o futuro. O filho ia ser um homem de farda, e ela, artista famosa. Tomou coragem e foi até lá perguntar. Nada. Desistiu de vez de procurá-la.

 

- IX -

 

      E lá estava ele, ou melhor, ela cantando todo o repertório de Ângela Maria enquanto fazia o serviço da casa. Sua voz ia longe, morro acima. “Aí Amândio, você está alegre hoje, hein!”, alguém gritava lá de fora, só para ouvir as mesmas respostas: “Amândio é o cacete!”. Todos se acostumaram com os seus rompantes e a sua irreverência, até mesmo seu Deocleciano. “Se mentir doesse, coitado do senhor, hein, ia viver gritando”. Na venda dos portugas, ninguém mais estranhava os bóbis na sua cabeça. Já chegava falando alto e provocando todo mundo. Chico ‘Mulato’, cinqüentão metido a garotão, era uma das vítimas prediletas do seu humor ferino. “Sai pra lá, ‘museu’, vê se te manca; ridículo esse bigode pintado”, ou então: “Vai procurar um rosário”.

      E lá estava ela no aniversário de quinze anos da filha de Rafa, afinal, sua sobrinha também. Como sempre a rodopiar como um pião. Só que o rebolado agora era muito mais da volumosa barriga.

 

- X -

 

      – O que foi, Amândio? Algum problema? Você está bem? – pergunta-lhe Rafa ao vê-lo sentado de cabeça baixa, apoiado nos antebraços, sozinho na mesa da área dos fundos de sua casa, situada ao lado da pequena mercearia que abrira na Penha. Amândio permaneceu como estava, sem dizer palavra. Rafa insistiu, pois era a primeira vez que ele se comportava daquela forma. Outra pessoa. Como se estivesse longe dali.
      – O que foi, Amândio? Pode falar.
      – Nada não – respondeu Amândio, sem levantar a cabeça. Pela primeira vez em mais de trinta anos, sua voz soou diferente, sem a afetação habitual. Uma voz grave, pausada, meio lúgubre até. Não era Carmem quem falava, nem era Amândio. Rafa sentou-se ao seu lado, preocupado, insistindo em saber o que se passava. Por que Amândio estava tão triste e abatido?
      Amândio Tinha ido à casa de Rafa, como fazia às vezes, para pedir-lhe algum dinheiro. Na velha casa da Vila do Céu, depois do falecimento de Dininha e seu João Bombeiro, moravam apenas ele, Júlio e uma filha deste.
      – O que foi Amândio? – insiste Rafa. – Vem cá, por acaso você está pensando na sua mãe? – Rafa fulmina-o com a surpreendente pergunta. Ora, como é que Rafa adivinhara o seu pensamento, se nunca tocara naquele assunto com ninguém? Amândio desanda a chorar, em silêncio. Daí a alguns minutos, levanta a cabeça, olha fixamente para Rafa e desanda a chorar de novo, agora de forma convulsiva. Um pouco mais recomposto, resolve abrir-se com Rafa.
      – Sabe o que é Rafinha? Eu nunca falei nada pra poder esquecer. Eu penso sempre na minha mãe. Sempre sonho com ela. E agora, depois da morte da Dininha, é quase todo dia. Pra mim a vida acabou. É muita saudade. Muita tristeza. Sabe o que é? Ontem eu tive um sonho horrível. Um pesadelo.

      Carmem sonhara que passeava de mãos dadas com a mãe num lindo bosque. “Parecia a Quinta da Boa Vista, mas não era”, assegurou, pois “tinha também uma praia comprida, comprida”. De repente ela largou a sua mão e foi se afastando vagarosamente, de costas, sorrindo para ele, em direção ao mar. Só que o rosto dela parecia com o de Dininha, e ele não conseguia entender. E lá estava ele, tentando alcançar a mãe, a qual, ao mesmo tempo em que se afastava, chamava-o com as mãos estendidas. “Quanto mais eu corria na direção dela, mais ela se distanciava. E eu com água pelo nariz. Só não morri afogado no sonho porque acordei, suando em bica”.
      – Deixa de bobagem, Amândio, a vida continua. Sonho é sonho; a gente sonha o que está na nossa idéia – Rafa tenta reanimá-lo. – Você não disse que tinha um encontro com um bofe na cidade? – tenta fazê-lo voltar a ser Carmem, e passa-lhe o dinheiro que pedira. Qual nada. Permanece sério, sem dar resposta. Ficam em silêncio por alguns instantes.
      – Não se preocupa não, Rafinha, é que a gente às vezes... Você sabe como é, não é? Tudo é ilusão nessa vida. Bem, deixa eu ir – falou, com a voz ainda embargada. Apesar do rosto maquiado e a blusa um tanto feminina, não era Carmem quem falava. Era Amândio, mas um outro Amândio.

 

- XI -

 

      – Rafinha, você sabe do Carmem Miranda? – pergunta Júlio ao sobrinho. – Ontem de manhã ele disse que vinha na tua casa ver se você arranjava um dinheiro pra ele, e não voltou. Ele nunca faz isso sem avisar. Como ele saiu desarrumado, eu pensei que ele tinha dormido aqui. Eu fiquei preocupado. Já são quase seis horas.
      – Ué! Ele esteve aqui ontem, mas foi embora sem nem querer almoçar. Estava meio estranho... Espera aí, tio, o senhor tá dizendo que ele não voltou para casa? Bem, vai ver ele foi pra casa da tia Zefa.
      – Também não. Eu já passei lá. Ninguém sabe onde ele se meteu.

      Rafa tremeu dos pés à cabeça ao lembrar-se da conversa do sonho. O tio e ele resolveram procurar Amândio. Foram a tudo quanto é lugar, desde os locais que ele costumava freqüentar, como a Cinelândia e a Praça Tiradentes, até hospitais e delegacias, para ver se havia algum registro. Nada! Ninguém o havia visto. O que fazer? Julinho já tinha falado em irem ao necrotério, mas Rafa relutava. “Vira essa boca pra lá, tio, vai ver que tomou umas e outras.” Lá pelas três da madrugada decidiram ir ao Instituto Médico Legal. Pediram para fazer o reconhecimento dos corpos não identificados. Eram quatro. Respiração presa, rogando a Deus para que nenhum daqueles corpos fosse o de Amândio, só se tranqüilizaram quando levantaram a lona do rosto do último. Decidiram continuar procurando. Para Rafa, o seu desaparecimento tinha tudo a ver com o misterioso sonho. Não lhe saía da cabeça a imagem de Amândio afogando-se na tentativa de alcançar a mãe. “Vira essa boca pra lá, digo eu, Rafinha. Parece urubu”. Vai, não vai, decidiram perguntar na Praia de Ramos. Nenhuma notícia.

      Uma semana, duas. Um mês, dois, três. Um ano, dois. Sumiu. Se estivesse por aqui e alguma colega sua desaparecesse assim, diria, com aquela ponta de riso, entre a ironia e o deboche: “Virou purpurina, ué!”


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