Documento sem título
  Segurança Pública e Direitos Humanos
 
Documento sem título
Associação de Oficiais Militares
CESeC
Fórum Brasileiro de Segurança
Forum de Segurança Pública
Governo estadual
Guarda Municipal do Rio de Janeiro
IBCCRIM
Instituto de Advocacia Racial e Ambiental
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
ISP
LeMetro
NECVU
NUFEP / UFF
NUPEVI
Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro
Polícia Federal
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
Rede Nacional Direitos Humanos
Rio de Paz
SEAP
Viva Rio
 
 O Dia
Veja + 
 Globo On
Veja + 
Folha ONLINE
Veja + 
 
 
Documento sem título
ROTINA NA VILA, EM QUATRO TEMPOS

 

      Madrugada


      - Mamãe, quero água! 
      - Ih! Ela não estava dormindo não. Será que ela estava ouvindo? Sacana! Fingindo, vê?
      Não será diferente no barraco ao lado, embora, de vez em quando, no da frente, pareça que o Zeca da Iara a esteja surrando, tal a altura dos gemidos da mulata.  

      Domingo. O ensaio da escola termina mais cedo, porém, por causa do calor sufocante, silêncio mesmo só lá pelas duas. Luzes se apagadas, janelas abertas, irritantes mosquitos. Pior é que tem gente que bota resto de peixe no lixo! Um fedor. Ainda bem que agora começa um ventinho daqui pra lá. Que alívio! Mas as crianças não pegam no sono, e aí não dá pra ficar à vontade. Sabe como é, né? Criança é fogo. E ainda tem a bisbilhotice dos vizinhos. Parede de meia é uma porcaria. A gente tem que prender a respiração; um sufoco. Psit! Psit! No final, mais descanso do que gozo; descanso do esforço de não fazer barulho.    

      No campinho do Rala-Coco, a rapaziada do Tetê não descuida. No controle. Lá de cima dá para ver tudo. O problema agora é que o Mosquito continua de olho na “boca”. Ele jurou que ia voltar, e o pessoal acha que ele pode tentar pelo outro lado do morro, aproveitando a escuridão. Tetê mandou fazer uma clareira e arrumou fuzil pra todo mundo. “Se os alemão vier!”
      Antigamente não tinha nada disso; a malandragem jogava ronda e tomava umas e outras numa boa. Eram dali mesmo. Agora, todo cuidado é pouco. Aí, pra não dormir, um pouco da “branca” ou da “preta”. Só um pouco... Neguinho fica ligadão.  

 

      Manhã


      Não são nem cinco horas, mas já tem gente descendo. Tião Motorista é sempre o primeiro; logo após vêm o João Pedreiro e a Rosa. Depois, desce o resto do pessoal. Alguns tão apressados que nem dá para preparar a marmita direito.   

      E lá vai a Rosa, toda apressadinha. Segunda-feira é sempre a mesma coisa. Ela sabe que tem que chegar cedo para fazer o café antes de a patroa sair, mas fica na quadra enchendo a cara até acabar o ensaio. Tem segunda que nem consegue ir trabalhar. Uns vão subindo, como a Diná, exausta, com a elegante roupa em desalinho, descalça, sapato alto na mão para subir o morro. “Não é mole, trabalhar na noite cansa!” E sobe também Nestor, sempre reclamando dos chatos e bêbados que tem de aturar no restaurante. “- Ter que ficar rindo pr’uns babacas que aparecem lá! Não fosse a gurja!...”

      Antes mesmo de a venda dos portugas e as biroscas abrirem, lá estão os inseparáveis amigos da “confraria da cachaça”, Chico Preto, Ventania e Pé-na-Cova, emendando o interminável porre, sentados na escadaria. De mão em mão, a garrafa mais parece o cachimbo da paz. Os moleques da Rua de Cima descem com os carrinhos de rolimãs. Na reta que dá no asfalto, disparam ladeira abaixo, com barulho ensurdecedor. Vão fazer carreto na feira da Estação. Outros saem mais tarde, em grupos, ninguém sabe para quê nem para onde. Coisa boa não pode ser. Os que estudam de manhã, às vezes não podem ficar na escola: “Paralisação de Advertência”. Alguns ficam por ali mesmo, trabalhando no “movimento”.
      – Oba! Não tem aula! Fecharam o portão. - Porra, sacanagem do seu Zé; custava alguma coisa deixar a gente jogar na quadra? - Então vamos pro Rala-Coco. Cadê a bola? A mãe de Chiquinho se surpreende:  – Que diabo é isso, menino? Por que vocês não estão na escola?
      – Não teve aula, mãe. Acho que só semana que vem.
      – Outra vez?! Que droga! Então vem carregar água pra mim – Dona Clarinda fala por falar, pois sabe que o Rala-Coco é um apelo irresistível! Água encanada só lá embaixo. Para quem mora nas grimpas, só no Larguinho do Bicão, no final da Rua de Cima. Porém ultimamente a água anda bem fraquinha.                      – Olha só que fila. Desgraçados! Sempre prometendo, prometendo. Depois, esses putos vêm pra cá pedir voto.


      A fila da água vira ponto de reunião, animado pelos mexericos e boatos. Grande falatório. Ai de quem não estiver presente, principalmente na boca de Maria Palavrão.
      – Menina, nem te conto; sabe da metida da Tereza do Nestor? ‘Tão falando aí que a piranha agora tá chifrando ele com aquele PM grandão do posto. Aquilo é um corno sabido. Daqui a pouco a galhada dele vai agarrar na porta.

      O mexerico chega aos ouvidos de Tereza, que exige uma atitude do marido. Este, empunhando uma faca de cozinha, cego de ódio, vai atrás de Palavrão. Ora, como é que ela podia inventar uma mentira dessas de sua mulher?! Palavrão só não teve o bucho arrancado porque Nestor, bem mais velho do que ela, não conseguiu alcançá-la. A nega parecia uma gazela, desembestada morro abaixo. No dia seguinte, tudo esclarecido. Palavrão tinha sido mal interpretada. O PM é que estava dando em cima da Tereza. “Aquele safado!”

      Alegria na birosca do Zé do Norte. Zé matou mais um porco enorme. O pessoal já tinha encomendado a carne, mas deu bem mais do que esperavam. No balcão improvisado, do lado de fora, ainda tem bastante carne e toucinho para fazer torresmo. Logo vai acabar tudo. Os miúdos e as tripas foram encomendados por Dona Ondina, que aprendera a fazer lingüiça quando criança em Minas. Zé reservou o lombinho para vender fritinho. “Uma delícia com cerveja bem gelada!”
      – Olha aí, Mazinho, bota dez no moleque 18, na cabeça. Cerca o milhar e a centena do talão pelos cinco e pelos sete – dona Ondina faz a sua “fezinha”, certa de que vai dar porco na cabeça.  

 

      Tarde

  
      Sol a pino. Marasmo na birosca do Zé do Norte, que tem de aturar Chico Preto, Ventania e Pé-na-Cova. E também outros desocupados, grudados ali que nem carrapatos. Zé do Norte finge que não liga. Afinal de contas, sempre aparece alguém para pagar uma cana pra eles. Em qualquer lugar, o calor abafado. Pior dentro de casa; aquela fornalha. Antigamente, dava para pegar uma sombrinha na mangueira, mas agora a rapaziada do “movimento” tomou conta até da sombra.  

      Engraçado! Os homens não gostam de carregar água da bica; acham que é coisa de mulher. E ainda sacaneiam: “Lata d’água na cabeça / lá vai Maria, lá vai Maria.../ . Maria Palavrão faz, então, jus ao apelido. Coitada da mãe de Dico!... 

      Já passa das quatro. Na semana em que Zeca trabalha no turno da noite no Cortume, Iara não faz por menos. Ele tem que dar conta do recado de tarde mesmo. Janelas fechadas, apesar do calor, é aquele alarido de sempre.  
      – O furunfunfum lá dentro tá bom hoje, hein, Diná – comenta Palavrão em voz alta, fazendo com que os outros agucem os ouvidos. Dez ou quinze minutos depois da sessão de gemidos, eis que surge Iara, dirigindo-se, com disfarçada naturalidade, para o tanque de roupa. Com aquele ar de criança que acaba de fazer arte. E começa a cantar: “Que será / Da minha vida sem o teu amor / Da minha boca sem os beijos teus...”

      O entra-e-sai de carros na Rua de Cima aumenta. Eles sobem pela outra entrada do morro. Mal chegam e já vão embora. Muitos chegam de táxi ou a pé. Alguns, já conhecidos e mais familiarizados, nem precisam guardar a senha. Gente do movimento desce e repassa o produto. Quem quiser, pode dar um tapa ali mesmo. Garantido.
      – Polícia, polícia! Sujou! – grita um dos moleques, antes de o foguetório começar. Em pleno verão, parece festa junina, e de dia.
      – Porra, e o arrego? Tá vendo, não se pode confiar!
      – Vai ver que tem neguinho bancando a volta do Mosquito. Tremenda sacanagem! Depois que o Tetê expulsou aquele filho da puta ficou limpeza, na maior moral. O Titio é que é sangue bom. Lembra quando o Dico foi atropelado? Ele bancou geral. Ele só é ruim pra neguinho vacilão. Aí, vacilou, dançou.   
      – Aquele merdinha de nada; na mão não agüenta um tapa. O que tem de pequenininho tem de ruindade. Só fala em passar o cerol, mandar pra vala... Dizem que ele tem trato com o diabo.
      – Cruz-credo! Já pensou se ele volta?
      – Ih! Olha lá embaixo! A rapaziada se mandou. O Pé-na-Cova marcou bobeira e grampearam ele. Sacanagem dos home, nada a ver!
      – Sacanagem! Estão enchendo ele de porrada! Agora vão dizer que o babaca é traficante, como eles sempre fazem. Covardia!...

      De nada adiantou o Zé do Norte explicar que o problema do pobre coitado era só a cachaça. Levou um safanão, e teve que calar a boca para não ir preso também. Pé-na-Cova mal se agüentava em pé.
      – O Titio não vai gostar nada disso. O bicho vai pegar, vocês vão ver!... 

 

      Noite


      Todo mundo com pena do Pé-na-Cova. O vai-e-vem da boca diminui. As ruas e vielas continuam cheias de gente. As biroscas também. Além de caprichar na dose, Zé do Norte ganha dinheiro com o jogo de totó e o campeonato de porrinha que inventou. Na TV, a notícia: “Preso em batida policial na Vila do Céu o perigoso traficante Sebastião de Jesus, vulgo Tião Malvadeza, lugar-tenente de Tetê, que se evadiu.” A revolta do morro é geral. Tetê não se conforma: – “Isso não vai ficar assim não. Esses verme vão ver só!”
São mais de dez horas. Dinoca vem chamar o marido, Dico, pela segunda vez. Agora diz que só vai embora com ele; cruza os braços e fica esperando, olhos fixos, cara feia, na sua direção. Dico sai no prejuízo; perdeu três rodadas na porrinha. Vai embora pau da vida, ainda tendo que aturar a gozação dos colegas. “Pra casa!, Pra casa!...” 

      Quase meia noite. Por causa do calor, todo mundo ainda está do lado de fora, a garotada na maior algazarra. Na sede da Associação, estão estreando a nova mesa de sinuquinha, doada por Tetê. Mais um motivo para não ir dormir cedo.  
      – Amanhã vai fazer o maior sol. Quem topa ir à praia? Vamos zoar os bacanas?...
      – Viu a cara daquela dona?! – os moleques caem na gargalhada. – Mal elas vê a gente, segura logo a bolsa! 


      Madrugada


      – Que droga! Segunda-feira não tem ensaio.
      As luzes vão se apagando. Desta vez o silêncio incomoda. Algo estranho no ar. Calor sufocante.
      – Puxa! Até que enfim um ventinho! Me abraça, me abraça. 
      – É, mas vem de lá pra cá, e com esse cheiro não dá pra nada.
      – Esquece. Pensa numa coisa boa que você dorme. Chega pra cá, vem, vem. Psit! Psit! Ela está dormindo. Vem, vem...
      – Mamãe, quero água! 
      – Ih! Ela não estava dormindo não. 


Os conteúdos dos textos deste Site podem ser usados livremente. Pedimos, no caso, que sejam consignados os devidos créditos, com a citação do autor e da fonte.
Documento sem título
Todos os Direitos Reservados Jorge Da Silva   Desenvolvido por Clandevelop