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ARRASTÃO EM IPACABANA

(Publicado em: Antologia dos premiados no Concurso Literário do Servidor do Estado do Rio de Janeiro (Servidor das Letras 4). Rio de Janeiro: SARE / FESP, 1994).

 

 

    – Você não tem medo desses arrastões? – pergunta Patrícia à amiga Vanessa.
    – Claro! Nos fins de semana mesmo é que eu não venho. Isso aqui virou terra de ninguém. Vem gente de tudo quanto é lado. E que gente!... Olha só a bagunça que eles fazem, sujando a praia toda.
    – Se fosse comigo eu acabava com essa pouca vergonha em dois tempos – corta o velho Cordeiro, franzindo a testa para forçar o ar de durão. – Onde já se viu, não poder vir à praia por causa dessa corja?! – arremata, fazendo uma pausa de efeito como que a esperar aplauso.
    – É isso mesmo. Lembra daquele que passou na televisão? A Marília Gabriela ficou apavorada. Já pensou: um monte de ladrões fazendo a limpa em todo mundo?! Teve gente pisoteada. A maior zona... (Vanessa se arrepende de pronunciar uma daquelas palavras que sempre deixam o austero homem ruborizado) ...a maior confusão. Antigamente era só o cocô dos cachorros e as boladas; não tinha essa violência. Agora, basta alguém gritar “Olha o arrastão!”, e sair correndo, pra todo mundo se desembestar atrás.


    João Cordeiro é daqueles que, decididamente, não vão mais à praia. Irredutível, prefere a tranqüilidade do clube, onde, despreocupado, pode queimar as gorduras e a cerveja na sauna.
    Manhã de domingo. Piscina interditada. Cordeiro reluta muito, mas tem que ceder ante a insistência da mulher. E lá está ele na praia, no meio do animado grupo, sol a pino. Apesar de intransigente, Seu Cordeiro é pessoa agradável, sempre com idéias mirabolantes, a voz no último volume, como que a discursar para uma multidão. Nunca perde a pose de autoridade, e não deixa ninguém falar. Uma figura!
    – Pior é que ainda ficam dizendo que não tem jeito, que a praia é pública, e essas baboseiras. Está tudo errado!
    – Mas a praia é pública mesmo, João – cutuca Dona Clotilde, sua mulher.
    – Ora, pública, pública... É pública, mas não é casa da Mãe Joana. De que adianta pagar uma fortuna de imposto? Vocês se lembram da outra vez? A polícia baixou o cacete. Quando eles querem, eles resolvem. Num instante os marginais se escafederam. Tem que ser no cacete!
    – Mas papai, não é por aí. O que precisa é ver ...
    – Lá vem você – atalha Cordeiro, sempre às turras com a filha. – O problema é que tem gente como vocês, sempre com essa história de direitos, direitos... E os deveres? E os nossos direitos? No meu tempo esse pessoal lá da casa do capeta nem se atrevia a vir pra cá. Tem é que fazer um arrastão ao contrário, como da outra vez, e proibir os ônibus nos fins de semana. Nem precisa colocar cerca na praia, como andaram falando por aí. Isso não resolve. Tem que ser um plano abrangente, pra resolver de vez, como o plano lá da Associação.
    – Pronto, papai! Lá vem o senhor com esses planos. O senhor não vai querer explicar agora, vai?
    – Ora... Eu não ia explicar nada – Cordeiro tenta disfarçar.
    – Por que não, seu João? – Vanessa finge estar interessada. Os outros amigos do grupo concordam.
    – Bem... já que vocês insistem... – o homem compenetra-se e simula hesitação. – Bem... Quer dizer... O pessoal da Associação resolveu chamar de “Plano Global Anti-Arrastão e Contra a Violência”. Bem... Vamos lá. Na realidade, o Rio de Janeiro é uma cidade-estado, concordam? Para evitar essa bagunça, a única solução é dividir em municípios. Não se esqueçam que a Barra não virou município por um triz. 
    – Como é isso, João, ia voltar a ser estado? – torna a alfinetar dona Clotilde, conhecedora da aversão de João Cordeiro ao nome Guanabara.
    – Não; não é bem assim. É mais ou menos isto, porém não ia ter nome de estado. Bem... Deixa eu explicar: é como se fosse um estado, mas o nome tem que ser Cidade do Rio de Janeiro, se não você ia ter dois estados com o mesmo nome; e o xis da questão é exatamente o nome. Rio de Janeiro é uma marca.
    – Mas que confusão, João. Ninguém está entendendo mais nada. Onde já se viu, um estado ter nome de cidade? Por que você não põe logo território, assim: “Território do Rio de Janeiro” – ironiza dona Clotilde.
    – Eu estou falando sério, Dona Clotilde! Não me venha com gracinhas. Vamos falar sério – o durão quase perde o fio da meada. – Onde eu estava mesmo?... Ah! Sim. O jeito é dividir em municípios. Mas municípios especiais. O problema são essas favelas do lado de cá do túnel... Vocês não acreditam? Pois saibam que o pessoal lá da Associação está entusiasmadíssimo, e já temos vários deputados interessados em apresentar um projeto.
    – Mas como é que ia funcionar, seu Joao? Agora estou curioso – Juca aproveita a oportunidade para bajular o virtual sogro.
    – Simples! Os municípios especiais teriam mais autonomia do que os outros, e suas posturas seriam mais rigorosas. Pergunto: o que um morador do município de Caxias vai fazer no Leblon, domingo à tarde? Tem gente que diz que minhas idéias são malucas, mas fiquem sabendo que lá em Petrópolis já existe um plano bem adiantado, o “Portais de Petrópolis”, sete grandes portais nas principais entradas, a fim de não deixar entrar estranhos.
    – Mas como é que eles vão saber quem é quem? – desta vez Juca pensa que vai embaraçar o velho.
    – Simples! Se o elemento não é residente no município (no nosso plano, cada morador terá sua carteirinha de residente fornecida pela prefeitura local), vai ter que explicar à Guarda Municipal o motivo da sua entrada. É óbvio que as próprias posturas estabeleceriam as exceções. Por exemplo: os não-residentes que fossem trabalhar no “Município Especial de Ipacabana” (eu daria esse nome a um dos municípios daqui) teriam autorização automática para tomar banho na praia de Ipanema nos dias úteis. E os ipacabanenses que acaso  fossem ao ensaio da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense poderiam, se quisessem, e sem necessidade de autorização especial, banhar-se na Praia de Ramos quando raiasse o dia. É claro que ia precisar de uma limpeza naquela praia. Era só organizar. Agora, se depois de tudo isso, ainda aparecessem esses bandos por aqui, aí não tinha jeito. Ia ter que ser no cacete. Por exemplo: olha lá aquela turma. Olha só a cara deles! Boa coisa não podem estar querendo. A polícia não podia deixar! – arremata o durão, estufando o peito e encolhendo a barriga.
    – Mas esses são daqui mesmo, papai. Daqui de cima.
    – E daí? Devia revistar todo mundo.


    Patrícia não consegue esconder o constrangimento diante do namorado e dos amigos. No fundo, o plano lembrou-lhe um assunto da faculdade que muito a impressionara. Mesmo sabendo que o pai não se dobra (a não ser à dona Clotilde...), Patrícia tateia, tateia, porém vai direto ao ponto:
    – Mas papai, isso é preconceito; é segregação. Foi isso que fizeram lá na África do Sul. Do jeito que o senhor quer, íamos ter o “Bantustão de Madureira”, o “Bantustão de Vigário Geral”, e por aí afora. Que horror, pai! O senhor tem certeza que...
    – Ora, não é nada disso! – corta Cordeiro, a ponto de explodir de raiva. – Você está é com zombaria outra vez.
    – Espera aí, seu João Cordeiro. Ela está com a razão. Isso é preconceito mesmo; é racismo – Dona Clotilde sai em defesa da filha. – Que chatice!
    – Que racismo uma ova, Clotilde. Aqui no Brasil não existe nada disso. Isso é coisa de americano. Aqui é todo mundo misturado. Quem não tem um pouco de sangue negro? E você sabe que eu sou pelo direito! Ou você não acha que nós temos que acabar com essa bagunça e meter esses marginais na cadeia? – o velho tenta contemporizar, mais calmo.


    Apesar da acalorada discussão, o grupo está animado, a cervejinha tinindo de gelada. De repente:
    – Cuidado! Olha aquele negão correndo... Ih! Os outros também! Estão vindo pra cá!
    – Esses não são daqui... e são muitos!
    – Vamos embora!... Corram!
    – Segura a bolsa!.. Ai!...
    – Corram!
    – Me ajuda aqui, gente, papai caiu!
    – Bandidos!... Miseráveis!... Bandidos!...


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