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“MAGISTER DIXIT”

 

 

      Início da década de 1950. Lócus: sala de aula de uma escola pública do subúrbio da Leopoldina, Zona Norte da cidade do Rio do Janeiro, então Distrito Federal e capital da República. Crianças da 4a série, procedentes da vizinhança, aí incluídos os hoje famosos morros do Alemão e do Adeus, assistem a uma aula de “Conhecimentos Gerais”. A professora fala das características das três raças que haviam formado a sociedade brasileira. Fala das diferenças do nariz, do cabelo, da cor da pele etc., e de como os negros e os indígenas tinham ajudado o português no empreendimento. Todos deveriam orgulhar-se da contribuição de sua raça para a constituição do povo brasileiro. Do espírito empreendedor dos portugueses; da força física dos negros escravos; da índole amistosa dos índios. Na verdade, a professora repetia o que estava escrito no livro dos alunos, padronizado para toda a rede escolar. Restava às crianças brancas verem-se inteligentes (e não tão fortes como as negras); às crianças negras verem-se fortes (e não tão inteligentes quanto as brancas); e às índias (se é que ali havia alguma) verem-se amistosas (e não tão inteligentes nem tão fortes). Magister dixit. Se a professora falou, e se estava no livro, então era verdade.

 

      Não se sabe que sentimentos aquela revelação despertou em cada uma daquelas crianças, a não ser numa delas, um menino que, aos onze anos de idade, foi acometido de profunda tristeza diante da fatalidade de ter nascido negro, filho de um negro e uma nordestina cabocla. Por que não nascera branco? Por que não era filho de pais brancos, como vários de seus colegas? Que inveja! Por que Deus tinha sido tão mau com ele? Bem que seu pai poderia ser mais claro, como sua mãe. Por pouco não renega seu pai, principal causador da sua infelicidade. Pior: franzino, limitado pela fraqueza que lhe impunham as constantes e duradouras crises de bronquite, não conseguia enquadrar-se no perfil que lhe era traçado, descrito pela professora e pelo livro. E como é que seus pais, seus avós, tios e tias viviam dizendo que ele era um menino inteligente, se a professora e o livro diziam que não era? E como é que vários de seus colegas brancos tinham desempenho pior do que o seu nas provas? Não; não adiantava ficar querendo sublimar o desgosto, pois estava no livro.

 

      Mas havia um consolo. Alguns meninos da sala eram bem mais pretos do que ele, como seus colegas Carlinhos e Jorge. Estes sim, coitados, como eram pretos! A tristeza do menino já não era tanta, pois, olhando bem, ele até que não era tão preto assim, e o seu cabelo, com a aplicação da brilhantina dada por sua avó, ficava bem lisinho e brilhando, quase igual a cabelo de branco. E como ele também aprendera na escola que as mulheres eram intuitivas e os homens, racionais, pelo menos era mais racional do que as mulheres, o que equivalia a dizer que era mais inteligente do que elas. Não se sabe se as meninas da escola concordavam com aquela explicação. Parece que sim, pois eram as professoras que a repassavam. Mas que o menino ficou feliz de saber que era mais inteligente do que as mulheres, ah! isso ficou, e assim pensou até a idade adulta. (Será que, no fundo, ainda não pensa?...)

 

      Final da década de 1980. A lembrança daquele episódio marcara para sempre a vida do menino, para o bem e para o mal. Ao realizar um estudo sobre relações raciais, ocorre-lhe pegar o livro de História de uma de suas filhas. Quem sabe as coisas não teriam mudado, decorridos tantos anos. Não muito! Sua filha, bem como suas irmãs e irmãos, e bem assim os seus colegas de escola, continuavam a aprender que “três raças” haviam formado a sociedade brasileira. E lá estavam os negros fortes, os índios amigos e os portugueses empreendedores. Aparentemente, tal fato não causou na sua filha o mesmo impacto que causara em seu pai. Bem, ou ela não tinha lido aquele ponto, ou a professora o tinha pulado, ou ela não lhe tinha dado importância, ou, como acontecera com aquele menino da Escola João Barbalho décadas antes, amargara o seu sofrimento solitária e silenciosamente.

 

      Flash back. Início da década de 1950. Aula terminada. As crianças vão para casa. Aquela talvez tenha sido a primeira grande crise existencial do menino negro, enquanto, certamente, foi um momento de grande júbilo para as meninas e meninos brancos da sala. Afinal de contas, eles eram descritos como inteligentes e bonitos. Porém, quem sabe um dia, conseqüência do “ensinamento” recebido naquela aula, alguns deles não viessem a padecer dramas existenciais parecidos, quando constatassem que, na luta pela vida, a cor de sua pele, vis-à-vis as pessoas “de cor”, não era condição necessária e suficiente para vencer, nem o fato de ser do sexo masculino. Há que perguntar: o que, anos depois, não se passaria na cabeça de um rapaz branco daquela sala de aula suplantado intelectualmente por um colega negro numa disputa por uma única posição, em que os dois competissem em igualdade de condições? E o que não se passaria na cabeça de uma moça branca ao ver-se rejeitada pelo rapaz branco que preferia o namoro com uma moça negra? Ou com o rapaz branco que perdesse no vestibular em que a sua colega mulher, e ainda por cima negra, passasse em primeiro lugar? Aquela aula, aquela professora e aquele livro - e outras aulas, outras professoras e professores e outros livros - causaram danos irreparáveis à formação da personalidade daquelas crianças, e não só daquele menino negro, que chegou a pensar que melhor seria não ter nascido. 

 

      Março de 2005. De novo, ocorre àquele menino do início da década de 1950, agora avô, procurar saber como o assunto vinha sendo ensinado às crianças nas escolas da cidade. Consegue um livro de História da 4a série do ensino fundamental, adotado pela rede pública, aprovado pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC (Cf. NEMI, Ana Lúcia Lana & MARTINS, João Carlos. Novo tempo: história e geografia, 4a série. São Paulo: Scipione, 1999). Constata que o assunto não é mais tratado da forma simplista como era antes. Até que enfim, os diferentes grupos étnicos que formaram o povo brasileiro são descritos em si mesmos, e não por exclusão, uns em comparação com os outros. Um inegável avanço. Mas teve a sua atenção despertada para dois pontos: um deles refere-se ao repasse da velha explicação de que os índios não se adaptavam ao trabalho escravo. Os autores, depois de terem falado da contribuição destes para a cultura brasileira, passam a falar do período em que se resolveu produzir açúcar para o mercado internacional, mencionando que os portugueses precisavam de mão-de-obra para o plantio e a colheita da cana, para a moagem, para operar as caldeiras etc. E arrematam:

 

“Ufa! Quanto trabalho! Quem faria tudo isso? Talvez vocês estejam pensando nos índios. Mas eles não estavam nada dispostos a trabalhar para os invasores. Além do mais, havia uma solução bem mais lucrativa para os cofres da coroa portuguesa: o tráfico de escravos africanos”. (p. 63) 

 

      Como se, na história da humanidade, os povos e grupos humanos escravizados tivessem tido a escolha de não sê-lo.

 

      O outro ponto que o deixou incomodado refere-se a uma proposta de atividade sobre o racismo que, pretendendo condená-lo, abre a possibilidade de reforçá-lo, em função da forma inusitada como é apresentada. A atividade é proposta numa página inteira. O texto vem na parte superior e, abaixo, vê-se o desenho de uma menina parda e de um menino branco. No texto, os autores propõem o seguinte aos alunos (p. 60):

 

“Forme uma dupla com um colega para conversar sobre racismo. Os versos abaixo são de tradição oral, ou seja, não sabemos quem os escreveu, mas eles vão passando de uma geração para outra e muitas pessoas sabem repeti-los. Vocês vão ler esses versos e pensar juntos: O que será que eles querem dizer? Será verdade tudo isso?

 

'O negro é burro de carga
O branco é inteligente.
O branco só não trabalha
Porque preto não é gente.
Branco nasceu para o mando
O negro para trabalhar.
Quando o negro não trabalha
Do branco deve apanhar.’”

(O negrito é do próprio livro)

 

      No desenho, nas caixas de diálogo, a menina pergunta: “Quem inventou essa bobagem?” E o menino: “Algum escravocrata, com certeza!” A proposta parecia interessante, mas o avô, talvez por causa de suas velhas lembranças, ficou intrigado. Como é que ele, interessado nessas questões e tão viajado Brasil afora, não conhecia aqueles versos chistosos? Conhecia outros chistes, como: “Branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão”; “Preto quando não suja na entrada, suja na saída” etc., mas aqueles, não. Apesar de afirmarem que os versos são repassados de geração em geração, os autores parecem estar certos de que os alunos não os conhecem. O avô perguntou a pelo menos uma dúzia de pessoas, de diferentes “gerações”, se os conheciam. Nada. Não conheciam, mas agora, depois que o menino-avô os mostrou, conhecem-nos, da mesma forma que milhares de crianças, de todas as cores, do “asfalto” ou da favela, por todo o Brasil, passaram a conhecê-los, já que o livro é aprovado pelo MEC para todo o País. O avô se pergunta: que sentimentos e reações essas “inocentes” trovas não terão despertado e não estarão despertando nessas crianças?


      É por isso que quando dizem que a solução para a desigualdade racial no Brasil, que muitos admitem existir, é a educação pública de qualidade, o avô até que concorda, mas concorda por razões diferentes das defendidas pela maioria dos que assim pensam.


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