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DROGAS. MUDEI DE OPINIÃO

 

 

Nos meus tempos de Polícia Militar, achava que os usuários de drogas deveriam ser reprimidos com o mesmo rigor que os traficantes. Já no final da carreira, tinha minhas dúvidas. Ora, por mais que os governos e a polícia se empenhassem (até as Forças Armadas foram empregadas no Rio de Janeiro), nada mudava, ou melhor, mudava para pior: mais traficantes, mais usuários, mais tiroteios, mais mortes, mais comunidades subjugadas por “comandos”, mais assaltos, mais “bondes” do mal em túneis e vias expressas. Na verdade, o que fazíamos, ou melhor, o que fazemos não passa de um constante “enxugar gelo”, expressão que utilizei em texto que escrevi há mais de 15 anos.

 

Depois, confundindo usuários com dependentes, achei que os usuários necessitavam de cuidados médicos. Mais tarde, que só dependentes, e não usuários, careciam desses cuidados. Também sustentava que o álcool, que consumia e consumo, não era prejudicial se tomado com moderação, ao contrário da cocaína e da maconha, drogas que, para mim, eram coisas do demo, caminho inevitável para a degradação moral e mesmo para a morte.

 

Incomodavam-me as campanhas pela descriminalização, legalização etc., por dois motivos: primeiro, porque via nos discursos públicos dos seus defensores um incentivo ao consumo; e, segundo, porque temia, em caso de a liberalização efetivar-se, que houvesse uma corrida desenfreada às drogas. Ficava imaginando pessoas tomadas pelo vício, trôpegas, olhos vermelhos, caídas pelas calçadas (aliás, como vemos muitos dependentes do álcool...).

 

Nas campanhas antidrogas, não entendia que, ao mesmo tempo em que se falava em caminho sem volta, apresentavam-se pessoas que tinham, como diz o chavão, chegado ao fundo do poço, mas que de lá tinham voltado, tornando-se pessoas produtivas, exemplos de cidadania. Ora, concluiria um jovem usuário: “Se é assim, quando eu quiser, paro”.

 

Chegam notícias de que em vários países, inclusive num dos mais repressivistas deles, os Estados Unidos, tem havido descriminalização do consumo, sobretudo da maconha, isentando de pena o usuário. E um dos meus temores diminuiu quando soube do que aconteceu em Portugal.

 

Em 2001, depois de muita polêmica, o parlamento português aprovou lei que descriminalizou o consumo e a posse para uso próprio de pequenas quantidades, não só de maconha, mas de todas as drogas. Como era de se esperar, houve protestos de toda parte, a maioria das pessoas acreditando que o consumo aumentaria de forma exponencial e que Portugal se transformaria num centro de viciados de toda a Europa.

 

Não foi o que aconteceu. Estudos recentes, inclusive do Escritório de Drogas e Crime das Nações Unidas (UNODC) revelaram que o consumo de maconha e cocaína diminuiu, sobretudo entre os jovens, e que o temor de que o País se transformaria num paraíso das drogas era um exagero.

 

Tendo em vista que o objetivo da governança global com a “guerra às drogas” era chegar a um “mundo sem drogas, e que esse objetivo, antes de ser uma utopia, é redonda insensatez; e tendo em vista ainda os danos sociais resultantes da “guerra”, mudei de idéia em relação aos meus tempos de PM: as drogas (ilícitas e lícitas) são uma questão social importante, e não “caso de polícia”. Para começar, faço coro com aqueles que, no Brasil, advogam em favor da descriminalização do consumo da maconha. Porém, por que não estudar melhor o modelo português?

 

Bem, e o que colocar no lugar da repressão? Prefiro uma combinação de educação, família, valores e tratamento para quem o desejar.

 

 


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