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ANGOLA É LOGO ALI

 

 

Até que enfim, estive num país africano, desejo antigo, viabilizado pela participação em projeto desenvolvido pela UFF (NUFEP e Faculdade de Direito), em parceria com a Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto. Até que enfim porque, ao longo dos anos, estive em muitos países, da Europa, das Américas e no longínquo Japão. Penitencio-me. Em uma ou outra ocasião, tive a oportunidade de escolher o lugar a ser visitado, e jamais escolhi qualquer país da África. Freud talvez explique. Ora, Angola é logo ali, do outro lado do Atlântico. Ligação direta, o que talvez explique o fato de o tráfico de africanos para o Rio de Janeiro ter sido tão intenso. Mais intenso do que o praticado entre a Costa da Mina, no Golfo da Guiné, e a Bahia. Além disso, cumpre não esquecer de que o Rio foi sede da Capitania, capital da Colônia de Portugal, do Império português e do Império do Brasil. Ou seja, durante mais de 300 anos, mesmo depois da Independência (...), a cidade foi centro de poder de uma sociedade assentada no regime escravista. Uma cidade negra, como se dizia no final do século XIX e início do século XX.

 

Assim, é grande a probabilidade de que os cariocas e fluminenses que hoje exibem marcas fortes da ascendência africana sejam, em maioria, bisnetos, trinetos e tataranetos de africanos saídos da região onde se situa Angola. Difícil ter certeza, pois, como se sabe, os traficantes e senhores de escravos tinham como crucial para o empreendimento escravista romper os laços que uniam as “peças” trazidas para o Brasil. Separar parentes e os da mesma etnia, e mantê-los em ignorância. Crucial para o controle dos escravos que estes esquecessem as suas raízes.

 

 

LUANDA < -------> RIO DE JANEIRO

 

 

Não conheci meus avós maternos (minha mãe, nordestina acaboclada, migrara sozinha para o Rio), mas parece que seu pai possuía traços de branco, e sua mãe, de índio com negro. Minha lembrança não vai além dos meus avós paternos: ele, negro fluminense, e ela, negra das Minas Gerais. Daí para trás, só a escuridão do tempo. Ironia: com freqüência recebo correspondência eletrônica de “sites” que oferecem o serviço de reconstituição de genealogias para obtenção de cidadania e de passaporte de países europeus, o que se tornou possível depois que, em 1994, os parlamentares aprovaram uma emenda à Constituição de 1988. Antes, quem aceitasse cidadania estrangeira perdia a brasileira. Dali em diante, virou febre a busca por dupla nacionalidade e passaporte europeu. Talvez Freud também explique.

 

Um dado interessante a propósito da ida a Angola. No Brasil, ultimamente, há quem insista em negar aos negros (sim, negros) o direito à identidade negra, com o argumento capcioso de que, entre nós, não há brancos nem negros. 'Só brasileiros', dirão, irritados, muitos patrícios, sem atinarem para o fato, imagino, de que dão continuidade ao etnocídio de que negros e indígenas foram vítimas ao longo da nossa história. Conseguem ver uma população etnicamente “uniforme”. A palavra “brasileiro” virou categoria de cor. Acontece que, em Angola, ninguém tem dúvida de que alguém da minha cor (cor da maioria dos angolanos) é negro. Negro angolano, se não abrir a boca.

 

Somos, sim, um povo miscigenado, não só de raças e cores, mas, sobretudo, de culturas. Porém miscigenação não significa padronização. Não significa que tenhamos de negar raízes e identidades, pois a nossa riqueza é exatamente a diversidade cultural. Ora, não há qualquer incompatibilidade entre alguém afirmar-se como brasileiro e ítalo-brasileiro, ou luso-brasileiro ou afro-brasileiro. Qual é o problema de os brasileiros se reconhecerem, ou serem reconhecidos, como brancos, ou negros, ou o que for? Por que o patrulhamento? Ah! se eu fosse psicanalista!

 

Se somos miscigenados (refiro-me especificamente ao Rio de Janeiro), por que a fixação identitária apenas com a Europa? Penso que, se deixarmos de virar as costas para a África, talvez compreendamos melhor porque somos como somos. Poderemos concluir, por exemplo, que temos muito mais a ver com Luanda (e com Lisboa...) do que com Paris ou Nova Iorque. E aí, quem sabe, nos cansaremos da mímica dos países centrais. Angola é logo ali.

 

 


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